sábado, 31 de dezembro de 2011

Para abrir bem 2012

resvalar por um monte imaginado
pressa de inventar palavras novas
para tirar a comichão no cérebro
isto arrepia-me todo ainda que pouco


idas ao campo para ficar sentado
a pensar que há falésias à frente e muito mar atrás
para me abstrair na abstracção
do campo cheio de galhos eléctricos estridentes

sempre foi melhor quando não sei

parece que só me sei queixar, sempre me queixei


mas a verdade é que à noite o que mais penso
é que isto tudo que tenho não é algo de que padeço


aliás que tantos outros nada têm
e que eu
eu tenho
imenso.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Voltámos aos cafés

Fui a Lisboa e o café era caro para caraças
E agora estou aqui sentado a escrever desgraças
Como esta que pelos vistam não ensinam nada
Já que me martelam na fronte que não tenho nada p'ra ensinar.

Havia cães de variada envergadura e dóceis brincalhões
Que bateram várias vezes nas mesas do café
E uma vez até o amarelo trouxe a bola até a mim
Que eu me importei em devolver a troco de lhe dar uma festa.

A conversa tinha uma pitada de vermelho a tingir a face
E três dedos de oculto, como não os seis que o barbeiro me tirou
Gosto desta forma de conversa inteligente
Mas não sei se estou a ser verdadeiro:

Que a minha face mais verdadeira é quando eu não me agarro
E no meio de inteligências digo dezenas de barbaridades
Até que sumo à depressão de pensar na questão
De que talvez mais verdadeiras sejam as barbaridades
Do que as minhas verdades.

Depois, fomos embora e eu para não parecer forreta
Paguei o café. Dois euros e eu achei uma roubalheira
O carioca de limão (desconhecido para os teus) até compreendo
Mas o café a 1.10 é coisa com que não me entendo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Velho decrépito

Vou esperar até ter 50 anos
Porque é sempre isso que estou a dizer
Em palavras menos assumidas
De desejo de uma vivência ausente.

Vou esperar até ter 50 anos.
Talvez por essa metade de vida
Já a tenha meio compreendida
Já tenha meio copo cheio de nada
Ou virado ao contrário e cheio de fumo
Talvez por essa altura encontre razões
Para parar de procurar paz
Que espero seja a razão de a ter encontrado
Em mim ou n'outro algo que não abandone
Porque se abandona então há de se ir
E não me vai dar paz, pela sua prometida despedida.

Vou esperar até ter 50 anos
E ser velho chorudo carrancudo
Com a barba por fazer pai de 3 filhos
De uma vida fodida a trabalhar ou não sei
Talvez me safe talvez tenha com que me safar
Talvez possa dar aos meus filhos melhor do que tive
O que é difícil porque eu tive tenho muito e muito bom
Quero poder dar-lhes a ternura que hoje sinto
Quando estou no parque com uma amiga e vem a criança
Para andar de baloiço e eu falo com a pequena
Com tanto brilho nos meus olhos como a pequena traz nos dela
Com tanto encanto de viver como ela carrega na sua inocência
Com tanto carinho e amor como cada gesto de vontade lhe traz.

Vou esperar até ter 50 anos
Até ter dado muitos abraços
Até ter tido tantos filhos quantos venha a ter
Até ter visto os que tiver crescer
Até gastar toda a pinga de amor, e logo ele se renovar
Até ter vivido lágrimas mais instigantes que as que chorei até agora
Vou esperar até ter 50 anos para ver que amei
E depois escrever sobre isso
E pensar que
Talvez
Devesse ter escrito o que escrevo
Com 50 anos
Quando amava
E tinha medo
De amar.

Lirismo instantâneo

Cantam as aves e nada ecoa, o som é vazio e o mar parece não me querer matar a sede, a água salgada chama-me até ao fundo e os rios são o caminho que tomo, a morte pede-me tudo o que ninguém me aceita.

Seriously?

Oh man, go fuck yourself:
There are no ashes where no fire grew
There is no air in the vacuum
There is nothing where nothing built itself.

Nothing doesn't need to be built
Nothing doesn't grow
Nothing doesn't exist
And still, you think of nothing.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Se tivesse dinheiro comprava-te uns ténis de corrida, era mais fácil

Preciso de imagens para traduzir.
Preciso que corras pela praia
E que caias no meio da areia
Fiques por lá, enquanto me chamas,
E eu vou ter contigo.

Reparar que ainda estás de vestido
Vermelho. Entrar na água contigo
E todo aquele frio fazer-se quente.
Preciso de imagens para traduzir,
Preciso que corras por aí.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Je ne parle pas français

Let there be nothing.
I'll wish there is nothing.
Only silence.
I hope there's not even me.
No sand to fall between my fingers.
No pain, no grudge, no burden.


All, let it all be
A silent
A black
Endless
Raging
Void.

Without the need for
Hope
Food
Water
Beliefs
Others.

Or, if all has to disappear
Let there be nothing.
And let hope die last.

Receita para fazer uma boa limonada

Dos limões
Ficaram as cascas
O resto foi limonada.

Foi preciso
Meio litro de água
Quatro colheres (de sopa) de açúcar
Um chiripiti de café (para dar outro gostinho)
Uns quantos cubos de gelo
Mexer com gosto

Foram precisos
Copos
Uma bandeirinha (para enfeitar, mariquices)
Um jarro (onde pôr a limonada)
E gente com sede
Para haver gente com gente

Do jarro
Sobrou a polpa no fundo
E o ter de o lavar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A sério que não tenho este fétiche

Os teus beijos
Criam passos.

São sons de bucólicos passos
Os passos que oiço
Enquanto te descalças à varanda do meu pensamento.

Oh, como olho os teus passos
Apressado em te ver as meias
E, depois, os pés nus

No meio disto tudo - paro
Para tocar os teus pés -
E caio para a frente, redondo.

Só falo por mim com as ideias do José e do Camões

(Tentativas para não inventar não faltam
Pena é que às vezes a pressa da verdade
Tudo corrompa, e a mentira torna-se
A realidade da imaginação.)

Pois hoje sou um poeta lírico
Como diria José Régio:
Daqueles que perdem totalmente a cabeça
Focando-se na cousa amada.

E o eixo em que gira essa cousa amada
Sendo a minha própria condição de suspirante
Torna-se risonha e de arte
Nas mãos da imaginação.

Esperemos que não nos engula inteiros
Este corrupção para a visão da felicidade.
Depois, sabendo-se incerto o verdadeiro
Tudo tem término num criado mal.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Terei cês, terás cês

Não quero escrever imediatamente
Porque o ímpeto pode matar o bicho
Logo aí, já aqui, neste momento
E o propósito não é ser esse (novamente)

Vou escrever que um Sol é tórrido
E que me queima as ventas a lançar-me
Baforadas de chamas para a cara
E que é por isso que fico vermelho ao ver-te.

E quando imprimir isto vou esborratar a tinta
Mal a impressora cuspa o monopólio que aqui deixo
Porque eu espero que o apanhes e consumas
Talvez num suporte mais oral, até.

E se te ler isto, espero que o papel não queime
Por compensação que não queimem também as minhas bochechas.
(Já agora) Que os meus olhos se arqueiem como que apontando para cima
E que finalize com um formato curioso dos lábios.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Isto bem podia ter sido inspirado na retrete

Tenho um alguidar (na casa de banho)
Da cor do teu cabelo,
E às vezes só me apetece tirá-lo de lá
Porque (o teu cabelo) não merece aquele sítio.

Depois olho para as minhas mãos
E são pele como a tua.
Pego no alguidar
Para ver se te vejo novamente.

Ah, e esta caneta é da mesma cor que o alguidar
A tinta não é igual aos nossos olhos.
Mas eu não sei se deva amar
Alguidares.

Lei Marcial

Pus os putos a ler que já estava farto deles
No pc e na play.

Um esquivou-se
Vou para casa
E lá foi
Já não voltará.

O outro entediou-se
Fugiu a dizer que lia no computador
Mas foi-lhe negado o acesso
E sentou-se a ler.

Finalmente há um que nada diz
Já sabe a história e o fado.
Não há pc nem há play.
Pois que leia, com agrado.

Kung Fuu Estilo 264

Fui descobrir-me e descobri que tinha medo.

Calei os meus passos porque tinha medo.

Fechei os lábios porque tinha medo.

Apaguei os olhos porque tinha medo.

E continuei a agarrar
Com os punhos fechados
Um segurando o corpo
O outro amparando a derrota

E dei-lhe com força.

Calquei a minha própria descoberta

Só para não ter de abandonar o medo,

Só para saber que preciso deste medo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

É bastante natural até à cirurgia

Perdoem-me que tome
Ambiguidades
Diversidades
E que os olhos divaguem por aí,
Ficam presos em montanhas (se deitadas)
E em vales e flancos, rios
Tudo com um cariz de natureza
Bastante natural, até (excepto claro aquelas ocasiões modificadas).

Pior é o cheiro de queques na varanda
O aroma das laranjas
E o vento.
Tenho fome. Quando como?

domingo, 11 de dezembro de 2011

Assim sentava-me de forma diferente

Às vezes
Desejo
Ser louco
Para não ter pudor
Em sentar-me
Sozinho
Abrir os braços
E berrar aos céus
Todas as perguntas
Que me corroem
A esperança.

Pessoas normais só têm vontades

Preferia que ficássemos antes parados
Que para o cenário tivéssemos a noite
E o escuro
Tudo muito escuro
Para ter a certeza que
Não me distraía de ti
E que estivéssemos
Num sítio
Que nem seja meu
Que nem seja teu
Para não dizer que
O esforço
É nosso
E nos afogarmos
Em justiças
Provavelmente
Nem falávamos
Nem
Dizíamos nada
Mas estávamos
Ali
A notar
A nossa presença
A olhar para o escuro
E
A ver-nos um ao outro
A falar-mo-nos
A contar-mo-nos
Num sítio
Que não era meu
Que não era teu
De distâncias
Iguais
De necessidades
Iguais
De vontades
Iguais
De esforços
Iguais
Com a sensação de que
Eu não importo nada
Com a sensação de que
Tu importas tudo
Com a sensação de que
Tu não importas nada
Com a sensação de que
Eu importo tudo
Ali mesmo ao fundo da noite.

De nada, em vertical, em nada, em fuga, respostas

Janelas
Estantes,
Acudo-me a achar
Ali
Um mundo
Diferente
Misterioso
Ao avesso,
Com todas as respostas.

Então
Pegava nelas
Percorria
As capas
Com os dedos
Assim
Como quem
Percorre
Um corpo
De mulher
Com
Leveza
Com
Lentidão
Muita
Lentidão
Tornando-a
Sensualidade
Percorrer
A capa
Cheia
De pó
De respostas
De letras
De fugas
De vícios
De mim
De nada
De ti
De nada.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Eu sei que não valho nada mas eu faço-me questões


Essa
estrada
de asfalto…

Não tens
frio
nos pés?

Consegues
Ver
O céu?

Ou só sabes
olhar
para a frente? 
Sabes
o sabor
de ver a paisagem?

Conheces
os outros
e a ti?

És tu
és outro
o que és?

Da Rainha Dona Joaquina

Pergunto-me se esta fuga
É por (causa de) ti.


Esta
Fuga
Constante.

Em que não agarro
Nada,

Pelo menos não agarro
Durante tempo suficiente
Para ser largado (eu)
Antes,
Primeiro.

Prefiro
Largar
Prefiro
Largar eu
Primeiro

Prefiro
Antever
E fugir.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Estado de estar


Cada palavra é bastante.
Não importa quanta estupidez encerre.
Na altura, nem palavra foi.
Foi pensamento.

De há anos para cá que deposito palavras.
Perdoem-me os céus, perdoem-me os véus e perdoem-me as mágoas,
Que ao reler mil das palavras dadas
Encontro-as fúteis, nomeio-as estragadas.

No entanto, cada palavra foi um universo.
Um risco em papel e memórias de teclado,
Um pedaço de futuro com o passado guardado.
Trezentos casos de estupidez aguda,

Mas até a estupidez nos ajuda.
Não há como mutilar parte do ser,
Nem com as palavras se pode fazer.

Palavra alguma infecta ou gangrena,
Somente povoam espasmos e dores na traqueia.
Seja quando se escreve, seja quando se leia.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Santa Ignorância


Vinde usar os colares,
Preparai-vos com o pó de arroz,
Pousai esse livro,
Não o tomeis mais em vossas mãos.

A vossa perfeição basta,
Não necessita tal beleza de leitura.
Cada linha torna-vos a pele mais escura
E cada palavra é um suspiro contra algo maior.

E tu, largai as quadras.
Pegai nessas botas limpas
E ide sujá-las,
Cavalgai e aprenda a caçar.

Que o vosso tempo é precioso demais,
Para que vos senteis a ler linhas desmedidas.
Os livros não ajudam nada,
Os livros não salvam vidas.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Siddharta


Gosto de como o vento
É vento:
Como bate na cara
E me deixa,
Sozinho,
Sem justificações a dar,
Ausente de palavras,
De olhos fechados
De boca fechada
Sem ouvido atento,
E, no entanto
Completo
Completamente, aberto
A sentir cada toque na pele
Cada beijo na brisa
Cada cabelo a esvoaçar,
Com os olhos fechados
E os pensamentos
Tão negros
Como o que os meus olhos vêm,
Numa ausente introspecção
Sem falas caras
Sem pessoas caras
Sem caras
E sem eu,
No meu maior âmago,
E umas pingas de chuva,
Se estiver para chover.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Se eu não chegar

Estou obcecado em parar,
Em parar e ficar parado:
Não me chega, não quero mais,
Se eu não chegar a nenhum lado.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pululo


Sabes, querida, que já nem sei falar.
É uma alegria,
Esta monotonia consciente:
Uma segurança constante, mão agarrada.


E às vezes, sei que não guardo nada,
Que tudo parte de mim
Ou que antes disso me parto eu,
Sempre com a sensação de que me esqueci de algo.

E é triste, querida, este não saber falar,
Esta monótona segurança constante,
Um abrigo abeirado ao penhasco
Para tomar coragem e saltar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pedra rocha penedo

Que são, nada é.
Enquanto o cascalho roda e pula rochedo abaixo
A cabra salta e corre, ou se arrasta.

Que seja assim, se não é.
Que seja eu mesmo cascalho, num qualquer rochedo
Cascalho de cascos e pêlos e narinas ao rubro.

Que se for, não importa.
Hei de desfalecer em tentativa, ao subir
E ser cascalho de ossos e peles lá no fundo.

domingo, 13 de novembro de 2011

Oh nicey


Deixa lá,
Nenhuma parte de mim responde.
Já tive ânsia de ser de ter de poder
Agora é uma estranha calmaria.

Deixo postigos abertos para correr persianas,
Que talvez não interesse nada cá dentro.
Se sim, é deixado polvilhado num lado qualquer
Num pó de carvão ou tinta barata.

E acodem-me grilhetas e ferro, chumbo
E o que mais me torne pesado.
Sou um pesadelo, um pesadelo
Acorrentado ao passado.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Picturize this











Deixa-me gritar isto ao teu lado.

Que este silêncio
É parede e muro
Separação,
Eu tenho algo para dizer.

Por momentos
Os teus olhos foram mais verdes que a selva
E no seio da chuva
Eu parei sem saber falar

Algo brotou.
Não sei o que foi
Mas algo brotou.

Cá dentro
Não
Aí fora.

Porque foi aí
Que eu te vi
Os olhos mais verdes

E eu todo num momento
Fui a rua.

Fui a rua.

Fui a rua,
Que os teus olhos
Pintam
De verde.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

--//--


         Levantou-se. Dir-se-ia que esticava os dedos e algo alcançava – mas se dava a mão, quem a segurava no vazio daquela penumbra? Talvez seja coisa da noite, maluquices que se esvaem das entranhas dos pesadelos mais estranhos – sim, porque era nos seus pesadelos que ele a perdia, era nesses que tinha de estender os braços e fazer uma força que o esmagava, cortava, desmembrava, que o reduzia a pedaços de saudade e desejo.
         E abrir os olhos não significava algo muito melhor – então, ele olhava para o fundo da sua própria noite, e via-se pejado de candeeiros, luzes fúteis, e nem uma constelação que o acomodasse a um canto, a um vislumbre propositado. O escuro apenas pedia um revolver dos lençóis e um puxar dos cobertores – está frio e tem de voltar a adormecer.
         As aulas são um refúgio estranho, quando todo ele é estranho, quando até a si mesmo se estranha. Não sabe se se entranha. Não que isso importe: puxar os olhos até o eclodir da rotina, para tentar reparar num tipo diferente de reflexo da luz da chuva nas poças lá fora – isso, isso sim importa, que os outros, que valor mais que o de terra mal lavada ainda podem ter?
         Não importa sequer o que pensa ou as imagens que lhe acodem na variável queda. Quem as entenda que se contente com o silêncio de um sorriso – vale mais falar de coisas contentes e felizes, dá mais jeito. E os que tentem perceber: ao menos isso.
         Desenha uma bola, um parênteses, dois pontos. Isto é uma das boas coisas dos dias frios e chuvosos: o vidro da camioneta é uma prancheta enorme de desenho.  Ao menos aqui já os candeeiros se apagaram com a proeminente luminosidade do romper do dia. Que lhe tome o sono – às vezes vale a pena pensar que ninguém mais interessa. E os que interessam, esses, valem a pena. Assim se espera, pois claro.
         Já não sabe se o querer saber vale também o esforço – parece que as coisas fazem tudo para ser vistas e reconhecidas, para ser cumprimentadas e faladas com um certo gosto – mas basta essa pequena vaidade para se dar o desinteresse da coisa. Não, não, o que se quer é algo difícil, um jogo interminável, um ciclo de linhas paralelas – tudo menos tocar. Não, tocar não – se não nada vale a pena.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Telofase, Citocinese

Chega-te p'ra lá que já passámos a fase transformada
O que foi já foi e agora não é nada,
Quero enfiar os olhos no meio da almofada e pensar que acabou,
Não me interessa, se foi mau, se foi bom,

Tenho uma claque de enzimas para me descoser
A cada lembrança acabo por te perder
E a tua cara é um perfume ancestral
De ti não guardo muito mais do que aquilo que correu mal.

(É estranho que o que mais bom tenha sido
Só venha se eu me sujeitar a ser espremido)

sábado, 29 de outubro de 2011

Algo como sei lá


                Se queimo o Sol resta-me a Lua e um imenso pesar. Não há luar nem estrela ou constelação que após tal inaturalidade se mostre astro mais brilhante aos olhos meus do que a morte do meu Sol, queimado.
                E não foi preciso perdê-lo para o temer: foi bastante pensá-lo perdido para sentir um pavor negro corromper-me cada capilar que o meu pulsar alimenta.
                Será talvez esta a forma das coisas mais preciosas: saudade, um irreal estar quando a presença são cacos de poeira e cinzas de um fogo outrora vida.
                Não há depois fogo que consuma cinzas: e esse é um problema estelar. Que se transforma o peito em buraco negro ou num anão descolorado; não importam fins depois de um fim, se não são o começo de uma energia mais ampla.
                Se buraco: tudo absorve, nada deixe, e corrompe, corrompe tudo até aos degraus da sua corrupção; talvez na esperança de que alguém se sente nessa parte das escadas, para poder fatigar-se a mente com o rejúbilo do contacto.
                Se anão, tão só, fechado em puras paredes de giz, como um ponto na cardósia, a energia que tem é nenhuma e o movimento oscila entre o parado e o morto que se está.
                Não almejo estas condições de realidade demasiadamente trabalhada. Oh, não: esta realidade eu trabalho-a da forma que eu bem entender; o céu há de ser verde mesmo que o Sol não banhe os oceanos nos seus corais, nas suas conchas e nos seus cabelos loiros, que pendem desde longitudes inalcançáveis; mesmo o fogo há de lavrar terras e os rios hão de sepultar vales.
                Máscaras, se precisas, serão todas elas minhas para que eu mais facilmente veja transparências; não quero chocar com invisibilidades como os vidros de um stand automóvel, impecavelmente lavados e de uma sinistralidade infantil razoável.

domingo, 23 de outubro de 2011

Parece que tem que sangrar até a alma para sair


Quisesse eu mesmo que fossem palavras:
Não dá sequer para tentar alimentar gritos com isto.
Nem sequer a boca humedece : a garganta, seca.
Parece que estala, como o chão despido no verão.

Portanto, sei que os lábios são vermelhos,
E roxos, rosa, pálidos, sem vida e exuberantes.
Se pegar num pincel e o passar pelos lábios
Não agarro cor nenhuma, nem cuspo palavras.

Custa é mais a crer que o sangue seja vermelho,
E roxo, rosa, pálido, sem vida e exuberante.
Diria quase que são como os lábios de fora.
Por todo eu pulsa, mas não sai. Contém-se.

sábado, 22 de outubro de 2011

Aspersão, há falta de título melhor


Passo por passar.
Porque eu nada conheço: nem a tua forma
Nem o teu cabelo,
Nem o teu sorriso,
Nem o teu nada quando respiras.

Mas sou doido: tento aspirar o teu silêncio,
E transformá-lo em palavras minhas,
Ditá-las como se fossem feridas abertas
Regadas com sal e de sofrimento tamanho
Que a inspiração corre pela cara.

Estranho será saber-me estranho.
Seria mais normal existir a negligência,
Não tomar conta desta parte de mim.
Mas que dizer de quando eu próprio a conheço?
Tudo o que eu não conheço, é a ti...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Try out die now

I love you.
Like lips,
A salad
And three apples.

I don't know why.
That, I can't tell.
You are a tree to me.
You made my roots.

In your eyes,
I see black holes.
Everytime you stare at me,
I drown.

You turn me black.
For you I disappear,
As I love you so much
That you are happiness in a tear.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pensamentos quedados


Campos e campos de sementes de tempestade,
Eu passo e abaixo-me e apalpo a terra
Da mesma forma que eu te penso apalpar,
Enquanto galgo curvas de lama e recolho ventos ao chão.

Reparo que as folhas caem, e que tudo cai nesta morte incompreensível
E estendo a mão direita, toda cagada a escorrer água e terra e ventos pequenos
Para esmigalhar restos de folhas castanhas nas mãos, a tentar descobrir verde
E o castanho fica cagado da lama e voa-me das mãos com os ventos que colhi.

Este episódio, semi-erótico, que eu nem apalpava chão mas deitava-me na relva
De no meio de uma estranha fantasia, cai uma folha, somente uma, logo no certo sítio
E eu contemplo-a como se tivesse toda a expressão da vida, e apercebo-me que a tem
E sei que é certo e sabido que eu caia que nem folha e que mão alguma me salve.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Nice to meet you

 http://www.suckatlife.com/images/fullNiceToMeetYou.jpg
Queria o acaso,
Num vendaval espontâneo
Portas de fantasmas à maçaneta
E entraves de língua morta, sono pesado.
Uma marca oposta, diferente, contudo,
(Preto no branco, tinta húmida,
Pincéis molhados e cores misturadas,
Um cinzento multicolor por produto)
Contudo próxima, de quê (de quem?)
Dezoito milhões de pixeis descompostos
E se percebe que o pensamento
É como brisa, sugando a alma em perpétuo movimento para diante.

Tomem-se as palavras
(Como cafés,
E ovos moles.
Ah, ovos moles!)
Um remoer e mastigar, por vezes sem resposta,
Perplexo um pensamento, e a vista não se traduz.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Atomicidade


puta
estava sentada
era um vulto
mas era grande
crescia
ah, crescia imenso
sai sua vaca
sai!
antes que eu te parta o focinho
ah que grande merda
corróis-me a mente
porque raio te hei de pensar
sai
vai-te pela sombra
os teus braços
ossudos
os teus dedos
ossudos
o teu toque
nada
só resta nada do teu toque
vai-te por onde vieste
não é por mim
não
não tinha jeito de te temer se fosse por mim
mas temo-te por mim
porque ao tocares
na outra pele
me matas
e eu fico vivo nesta merda de corpo
a desejar sentir
e sempre a saber-me morto
foge de mim
foge
desaparece!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

(P)


Abre a porta
P'ra que vem, mas p'ra que vem
Não importa a presença de
Já cá estar,
Estas coisas ensina-se lá para fora
Assim como assim bater primeiro
Aspergir boa-educação antes de rodar a maçaneta
Mas só lá fora, cá dentro esquece
Não importa, está tudo ensonado
Se me chatear leva uma caralhada
E que se foda, mijo no bidé se houver alguém na sanita
Quando sair a ver se me lembro de lavar as mãos
Ah já fechei a porta e esqueci-me
Tou-me a cagar e não me interessa
Não estou lá fora
Vou à cozinha ficar em pé em frente ao frigorífico
Não há nada de jeito para comer
Apetece-me leite bebo do pacote
Também ninguém viu
Se visse também pouco me importava
Mas bom se houvesse cereais isto ainda lá ia
Enfim
Só a porta do quarto é que está fechada
Mas sempre que volto tenho a janela aberta e não gosto
Porque depois entram bichos e eu não gosto
E obrigam-me a fechar a janela aos pontapés
Está tudo espalhado pelo chão
O meu sofá serve para empilhar roupa
Quando precisar de me vestir meto a roupa para lavar
E fodace deixa-me em paz
Não viste que tinha a porta fechada
Põe-te na alheta
Sim estive a falar com ela
Já tou farto
De quem de ti seu nabo
Sim adeus fazes bem
Estava a ver que não...

domingo, 2 de outubro de 2011

De pé, ao canto.


 De pé, ao canto,
Portas de gigante ao caminho.
Peso demais para abrir
Um vislumbre.

De que falo? Que digo?
Escorre petróleo de dentro de mim.
Massa viscosa, negra e líquida.
Incendiável, explosão violenta.

Talvez um escuro de absorver.
(Não sei quem me compreenda.)
Portas de gigante ao caminho.
Peso demais para abrir.

Parca a compreensão.
A chave está debaixo do tapete.
A fechadura está apenas alta.
O crescimento não é bastante.

Tombam pingos de negrume lá do alto.
Talvez caindo nos olhos. Conte-se a invisibilidade.
Quem saiba isso perturbe o cálcio nos ossos.
Ou é a visão fosca logo por natureza.

sábado, 1 de outubro de 2011

Oitos e peixes

(Imagem retirada de: http://www.keithdriscoll.com/demo.html )

Pobre este estado de solidão na presença dela.
Parco é o entendimento do olhar, que tudo confunde
Vislumbrando jarras vertendo névoa
Para o fundo do amanhecer.

Oitos, e peixes,
Os peixes, desenhando oitos,
Como se calculassem perfeitas contas de somar.
Oitos e zeros, oitos e zeros.

Ao toque deforma-se a precisão matemática
Dos oitos, dos zeros,
Numa propagação de ondas
Piscícula.

Como tudo se deforma ao toque.
Pobre, este estado de solidão.
Quando toca, sopra ondas.
Não afecta esta pedra de abstracção.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Distinção

Que despertassem cem mil vultos de pássaros negros
Pela calada da noite e que pintassem os céus de escuro
E silêncio.

O chilrear seria tinta escorrendo numa tela vazia,
Cheia de vazio e de negro
E silêncio.

A morte chegaria como um susto breve e numa partida,
Recheando os bolsos de mágoa e entrega
E silêncio.

O perdão e o pecado confundiriam-se no desconhecido das formas
E as sombras resumiriam-se ao todo do quadro que se fita,
E silêncio.

O real seria real e o incerto seria incerto,
E o incerto apareceria com o pousar de asas negras e vultos pintados
Que tinham pintado de silêncio e vazio a realidade.

domingo, 25 de setembro de 2011

Reacção, presumição

Instigador,
Ao acesso de naturalidade,
Compadece o bisturi do corte
E conota à dor a expressão neutra.

Normal como a vida quando acaba,
Que flui em nada e não flui,
Quando o é, não sendo, e é
Nada.

Reacção comum, desejo (?) honestidade,
Parca escolha das palavras, que se mancha
O pensamento no pensar, e assim se preserva
O petróleo incandescente deste gelo de emoções.

    (Troquemos por miúdos, tiremos a tampa à garrafa
    Exercendo pressão e rodando, destruindo o picotado
    E facilitando a chegada ao fim de uma sede.)

Menos que tomar por próprio o que não é,
Como a imagem do bisturi acutilando a carne,
Será o objecto da minha existência apenas
Retracção e fustigação de mim?

Não o creio, e tomo licor com gelo e travos de limão,
Na agonia de deixar palavras incolocadas como verbos,
Tentação do toque fugaz a uma realidade
Mais verdadeira.

Daímonas


Por sobre a lareira,
Numa nuvem de cruzes.
Rangendo tábuas ao passo
Dos pés ausentes.

(É criado para se acreditar,
E não abomino.)

A sua figura massacra o corpo
Pelo silêncio das bofetadas,
No rancor do sangue que pende das cavidades nasais
Com a perdição do pecado.

(Tome-se cuidado, que "Deus" perdoa,
Mas eu, ele, não,)

sábado, 24 de setembro de 2011

Vagueio

(Imagem : http://1.bp.blogspot.com/_Nr5BHFR-SGw/S7vlIaUel6I/AAAAAAAAAIc/rINzTtNJ-68/s1600/OuropretoB.jpg )

Locomoção activada pela batida das zero
E principio aqui e agora,
No momento do nada e no momento do fim.

A parede é branca, mas está negra. (Escuridão.
Se tu roçasses os sons daquilo que penso,
Dirias que isto não tem sequer segredos.)

O pior é esta vontade de adormecer, e parece que não consigo.
No entretanto de acreditar que adormeço, acorda a fome.
Levanto-me para ir à cozinha, não acendo a luz.

(E está tudo escuro. Em criança vejo esquinas de terror,
Mas tu estendes os braços enquanto eu vou na direcção das bolachas,
Enquanto dizes, e repetes: não tem segredos, não tem segredos.)

Mas desde que o fim começou, que tudo tem um segredo.
Procuro em tudo um segredo para uma felicidade ausente.
E tudo hoje tem segredos. Menos a escuridão.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Tirado à força

Tu, eras assim.
Como a simplicidade das coisas.
Simples e bela, sempre,
Livre. Eras pura liberdade.

Na expressão máxima do teu desejo,
Não cabiam palavras.
Nunca, nenhumas. Sempre ausentes.
Os teus olhos para tudo chegavam.

Ou quando sorrias. Quando sorrias,
E o céu parecia vivo e mais azul,
E mais vivo e o azul pintado e refractado,
Uma cadeia de cores e tropeções.

Tudo isto, arrancando da memória
A ilusão de seres presente.
De seres árvore, perene, estática,
E crescer em tanto, tanta beleza.

Mas nada disso, e iludo-me enganado.
Esse corpo não é pinheiro nem sobreiro,
Desmitificando-se assim o castanho dos teus olhos,
O doce enrolado castanho dos teus cabelos.

Demência


Três estrofes, e só para a mesma coisa:
Para ti, para ti, para ti.

As linhas do caderno, são carpos metacarpos falanges falanginhas falangetas,
Cobertas de pele de papel e carne de tinta,
E eu as agarro porque enfim.

Escrevo outro verso: e logo paro, fiquemos por aqui.
Agora fico no silêncio das tuas mãos de mente.
Demente, mentira, mentira, mentira.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Obscuro deslumbramento


A precisar de mudança.

Aponto o dedo à tua cara,
Não importa o que pensas.

Se te percorro em caso imaginado,
Tudo é meu, meu, meu, aqui guardado,

Tu não sabes nem parte do que penso.
De partilhar o meu franzir, dispenso.

Sorrio, como caveira, morte possuída,
No mais obscuro do que penso da vida.

(Dá-me tanto gozo aqueles momentos de pura escuridão,
Em que me liberto até do meu próprio fardo,
E o meu corpo, não é mais senão
Ferramenta de enorme combustão.)

domingo, 18 de setembro de 2011

Reacção comum, querida


Realmente, o que te digo
É sempre nada.
Mas quando te vou falar
Tenho imenso para dizer.

    Ora, desculpa, se achas mal
    Estar tão cheio de palavras,
    E nada de real te dar.

Mas foi noutros tempos que eu soube
Que te iria dizer todos os dias como és bonita.
Só que eu entretanto cresci,
E hoje acho que preciso de palavras mais sublimes.

    Mas tu és mesmo bonita, sabes?
    Não importa o relógio do tempo.
    A minha criança acha-te sempre linda
    Seja por fora, ou por dentro.

Esta é a minha verdade.

Divagação, no campo


E quase dizemos as coisas,
E quase funcionamos.

Mas não há dor maior
Que a sentida.

A ordem aparente
É caos,
E a tentativa de justiça
É traição ao semelhante.

Pois ninguém sabe menos de si
Do que quem prende,
Que abafa gritos e choro
Porque lhe faz melhor.

E se metade que há caiu na asneira
De crer em si
Uno,
Mil rezas para que a si venha cura.

Que os que inalcançáveis caminham
Tornam seu o vislumbrado
E chamam à "morte"
A produção da "vida".

E não interessa quantos protestos, nem críticas.
Quem se sabe a tudo ligado
Compreende em tais ideias a sua aversão;
Não sabe o certo, mas distingue o errado.

Mas quase se faz algo,
E quase se consegue falar.

Estranha pretensão.
A de
Não querer
Fazer nada.

Dos outros, não sei e não falo.
Mas eu, sempre que paro
Sou assolado pelo bocejo
E convidado a dormir para sempre.

É que,
Se aqui estou
É para alguma coisa fazer.
Para saber. Para viver.

Não importam quantas alegrias há no mundo,
Se nenhum dos vivos sabe chorar
Ou não sente a dor e a perda
Quando parte um bem-amado.

E eu não creio em Deus,
Não creio no que diz a Bíblia.
Mas sei que fala de sofrimento, e ajuda.
Um acontecimento, importante.

Mas se nada acode à ganância
E ao querer mais
E mais
E mais

Para que serve alimentar de intrigas
Quem só quer o bem para si
E para os outros,
Não se dizendo "só"?

A vida, essa, é nossa.
À morte não podemos nada.
Seja feita agora a nossa justiça.
Mas como?

Se todo o Homem é corrompido?
Não neguem, minha gente.
Pois tudo o que mexe um desejo traz consigo,
Um pouco de penumbra é presente, permanente.

E eu, se calhar, pereço agora.
Pereço da paz e da calma que sinto.
Eu não sei se a árvore me adora.
Mas quando lhe confesso isso, não minto.

sábado, 17 de setembro de 2011

Time Stops


E de repente,
Tudo se ausenta.
Sinto-me sozinho.
(Se em paz,
Estado?
Não sei.)

Mas,
Só sei que
De repente me sinto sozinho,
(Introduza-se neste espaço...
Umas quantas metáforas
Para maquilhar o conteúdo.)
E é assim,
Só,

Ausente,
Sem precisar de som,
Ou de dizer,
Que me percebo.
Não sei o que mais dizer:
Sei que sinto, este perceber.
E o movimento é na penumbra,
Só que tão iluminado
Que a simplicidade assusta.

While hearing: (Band) Explosions In The Sky - (Album)  How Strange, Innocence - (Track) Time Stops

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Oeuf

São todos uns toscos
Mas querem fazer-se de bons.

Aquele e aquele e aquele
Criticam uma crítica podre
Que em nada ajuda a crescer,
Destroem aquilo que se pode,
E o que não pode tentam mexer.

Meia dúzia de sorriso emprestado
Passa outra caixa de ovos sisuda,
Vendo tanto ovo alegrado
Partem-lhes a casca dura.

Meio milhão de contentes
Meio milhão de infelizes
Uns alegres e toscos
Outros toscos e tristes.

Tudo à confusão no mesmo plano,
Ninguém quer a face alheia pintada.
Se choram apenas partilham pranto,
Se sorriem não partilham nada!

Voi̱thós

Vou-te criar
Dez mil anjos de palavras cruzadas
Mais uns milhares de ajudantes
Depositar quantos Prometeus precises para dares chama à vida
E rabiscar o desconcerto que não compreendes.

Vou simplesmente dar-te
Três banhos por semana com palavras ensaboadas
E esfregar-te as costas com panos aquecidos;
Segredar-te tantos segredos quanto o teu avanço
E elevar-te com pé de ladrão por cima do obstáculo.

Mas eu não o farei.

Tu o hás de fazer, sozinho,
E tu sozinho hás de cair, e errar, e sofrer,
E entrar num ciclo, vicioso, de loucura,
Uma tentativa desesperada de alcançar uma vitória, um lugar ao sol.
Para ti apenas as palavras que admiras sem compreender, darei.

domingo, 11 de setembro de 2011

Desta vez, bebes tu o café


(Imagina, que em vez de leres
Agarras a colher que eu imagino
E mexes tu a bebida que a empregada traz,
Agradecendo um pensativo desconforto.

Sopras, está quente o café
E achas que o açúcar não chega.
Deitas mais.
E voltas a rodar a colher.)


Lembraste de toda a gente
Lá fora?

Quando passaste no metro
Estendeu a mão
E não falou:
Gemeu.

E tu, tu não esfarelaste o miolo
Tu não te achaste capaz
De mudar
Nada.

Lembraste?
Então

Porque é que agora
Olhas para esse café
Com desdém,
E lhe chamas um vício?

sábado, 10 de setembro de 2011

Revelações que o café quente traz enquanto se beberica


Interessante.
Interessante já não é ficar parado nas minhas ideias,
Também não é pôr as ideias a rolar.

O interessante agora é praticar.

Querer pôr o momento num frasco
E esgotá-lo
Até ao descascar da semente

Já não é opção.

Mas agarrar o momento
(Como quem agarra um passarinho)
Acarinhando cada oportunidade

É algo que talvez seja mais proveitoso.

Agora, entendo (um pouco) a inexistência do tempo
E a ilusão tão complicada de cada homem.

E sabes, falando directo para ti:
Que eu queria apenas procurar-te com os dedos
E germinar na tua face toques de alegria
Formando as curvas do teu sorriso
Assim um pouco como a espuma do café,
Em lapsos de liberdade,
Em que tu me dás a mão
Apenas quando tens vontade,
E o resto do que vivemos
Sou eu que te agarro,
Enquanto quero
Enquanto posso.

Por agora espero,
E mexo o café,
Sonhando o teu sorriso na espuma.
Tão real que bebo devagar,
Devagarinho.