segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pop Out

Dou uma mão na outra
Deixo-a pegar-me por este lado
Esta mão que me agarra, me procura,
E que é minha, de alguém não encontrado,
E procuro-me, sentido e limiar da destruição,
Traço as minhas próprias linhas, indefinidas
Pelo manto de fundo, pela luz da escuridão,
Por paisagens de memórias esquecidas.

(Todas essas memórias são... ora lembradas
Ora confiscadas
Ao próprio ser...

E assim sei não poder
Libertar-me o meu pensar tão completamente...
Mas não tem problema: esquecer-me-hei de repente!)

domingo, 29 de maio de 2011

Enganar o tempo, pagar o espaço


Apago a luz da vela...
Que dava um ar mais romântico a esta divisão...
Apago-a, para pensar nela...
Imerso, mergulhado na escuridão...

Se o tempo... não pagasse por cada momento...
E se o espaço... fosse tão fácil de enganar...
Por certo não sentiria este tormento...
Que é tentar... tentar-te amar...

E eu faria a lua brilhar
E o sol aparecer durante a noite
Se chegasse para te tocar
Se chegasse para abrir-me um horizonte...

Agora... já trago o pagamento na algibeira
Mas o tempo não o parece aceitar...
E o espaço sente a minha presença matreira...
Sou incapaz... incapaz de o mudar...

Assim eu apaguei a vela...
Para pensar... em ti...
E enquanto não conseguir tê-la...
Pensarei que me queres a mim...

Sensual, amor, com


Enquanto me beijares,
Passa uma mão pelo meu rosto,
Vagueia outra pela minha cintura...
Se estiveres bem-disposta,
Beija e trinca-me o pescoço...
Depois eu sopro-te na orelha,
E entre tantos beijos,
Tantos amares,
Depositaremos os nossos desejos,
No fundo de um outro,
Na altura,
Da nossa promessa...

E a nossa viagem...
Não será apenas essa...

Evolução, chaga, cada, dia, mudar


Um dia disse-me não ser poeta
Pela convicção que possuo de ser
Apenas outra pessoa - outro sujeito, outra colheita,
Um outro fruto da árvore de viver...

Um dia disse-me não ser ignorante
Mas procurador da embaixada da inteligência...
Mas apenas porque tomei consciência da minha grande
Falta... de sapiência...

Um dia hei de dizer não ser outra coisa qualquer
(E quando o disser,
Terei razões para isso...)
E no final de tanta exclusão, o que irei ser?

Não posso ser filho da imagem da perfeição
(Nem de perfeição é a minha face toldada...)
Mas posso melhorar, pouco a pouco, a minha compreensão
Deste mundo em que caminho... em cada chaga...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Repugnante

Sociedade degradada em futilidades.
Coisas parvas, coisa detestável
Para mim até, coisa que não deveria de existir,
Não são pessoas, e se são gente, deixem-me rir.

Batem e dão porrada, esfolam e matam,
Não têm nada - mas nada mesmo! - Na cabeça.
Eu cá só espero que toda essa coisa adoeça
(E desapareça.)

Estou farto de ao ligar a televisão
Ver acções mal pensadas, da juventude delinquente.
Ser fixe - será enfiar o porradão?
Eu não acho - e não o acha o resto da gente.

(Sim, a gente, não as coisas...)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Término


Quase,
Quase consigo,
Ver-te,
Levada pelo mar,
Trazida,
Pelo vento,
E sempre,
Sempre,
Sorrindo,
Contente,
Como na vez,
Em que te disse,
Que te amava.

Quase,
Quase consigo,
Ver-te.
Mas a saudade,
Não o permite,
A memória,
Já esqueceu a face,
Antes tão amada.
E a vida,
Seguiu,
Do nada,
Mas seguiu,
Mesmo de alma,
Parada...

Árvores crescendo para o vazio


Vamos plantar as árvores
Que ainda faltam no quintal
Vamos ser maiores, capazes
De ver todo bem em todo o mal!

Havemos de dar as mãos contentes...
Os dias serão bem diferentes...

Não acredites em mim
Quando digo que eu sou feliz...

Que eu não acredito em ti tão pouco
Quando mostras esse sorriso louco.

Havemos de dar as mãos, contentes,
E os dias serão bem diferentes..!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Canção da Presença


Imagina comigo o mundo crescendo do chão
E na plenitude de viver não existir razão
Busca comigo, parte do sonho da vida
(A parte não preenchida)

O outro lado da lua é perdido p'ra sempre
Pois que não o hás nunca de ver...
O outro lado que tu tens, mostra-se tão descontente
Mas aparece tão somente no teu rosto...

Imagina comigo que isto é uma canção...
Não há forma de olhar para trás
Mas por certo sentes que bate no teu peito um coração
E de resto o teu punho sabe do que é capaz...

Eu sei, tão bem, quanto tu, da dificuldade
Que é estar por aqui. Mil caminhos, mil escolhas,
E o pior é a escolha inevitável da saudade...
Mas viver é assim: o vento traz, o mar leva...

E se agora tentas tapar-te, não olhas
Tem cuidado: hás de cair...
Se a tua alma já desespera
Não aguentarás o que está p'ra vir...

(Por isso, agarra a minha mão
Imagina o mundo comigo
E se cantares esta canção
Sabes que estarei sempre contigo...)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Mais chachada emocional


Perdoa-me
Tenho falta de sentido...
Fiquei perdido na alcova
Depois de... estar contigo...

Os dias, eram coloridos
Um milhão de cores misturadas...
E os sorrisos, nunca tranquilos
Temiam apenas a sua chegada...

Entre beijos, havia flores,
Entre flores, os corpos cadentes,
Os corpos, fervendo calores,
Os calores produtos ardentes...

Como tudo desapareceu
Numa tarde de Outono...
Daí a minha inspiração se acendeu
E com ela veio o transtorno...

Release C


Apetece-me
Por apetecer
Ora mijar
Ora comer.

Ora na loucura
Na hora da bravura
Sinto cá tamanha vontade
De espalhar a minha arte..

Despe-te (em sonoros rodopios
Enquanto eu para ti corro
Corrente como os rios
Doce prazer puro...)

domingo, 22 de maio de 2011

Loucura


Vozes
Vais ouvi-las
Vociferando
No chão que caminhas

Elas apanhar-te-ão
(Por vontade, ou não
Esta captura é pensada, minha!)

Vozes
Vais ouvi-las
Tomá-las para ti
E as vozes farão assim

Furor e eco nas entranhas
O teu pensar será engolido
E neste chão que agora estranhas
Tu próprio serás consumido.

Infantilidade?


Serei ainda criança
Apenas por culpa da pimenta
Que tento pôr no meu viver
- Serei menor por pouco me conter?

Talvez deva terminar agora
A tentativa JÁ FALHADA de entender
A forma correcta de agir, de ser
Talvez deva parar de sorrir por me apetecer.

(NÃO, que o meu sorriso ninguém o leva
Apenas se vier esse tal ninguém…
Mas como ninguém nunca se eleva
Eu rio-me para o nulo de alguém!)

Una-mo-as


Todas as estrelas
Poderiam... brilhar mais

Se em teu coração
Uma chama mais ardente queimasse.

Toda as estrelas
Poderiam... brilhar mais

Se nas nossas mãos vazias
(Una-mo-as)
Uni-las
Fosse fazer um Uno-verso

(Um universo)

Todas as estrelas
Brilham... podem brilhar ainda

Se te abrires apenas.
No entretanto da solidão
Não esqueças nunca a presença de uma presença
Que te tomou a mão (que se uniu...
A ti..)

sábado, 21 de maio de 2011

Partícipio passado


 Ainda bate a chuva
Ainda cai e me dói e me mata
Raios e trovões e coriscos
Recordações altas cataclismos

Penhascos estreitos dúvida
Caminho lamacento falta
De estrada ou de carro ou de travões
Tudo isto - tudo isto recordações.

Particípio passado fugaz
Fuga a mim, fuga para trás
Fugindo como quem corre sentado
Eu corro - eu corro para outro lado
E de cada vez que me levanto
Tento a continuar novamente correr
Mas as pressas dão em vagares
(E eu vou com as vagas para estranhos lugares...)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Olá intímo...


Corre a minha cortina
Dá asas ao meu ser.

Lua, noite, luar,
Dá-te a mim... faz-me voar...

Entre o sonho de que durmo
Sei da ausência em que me ferro

(Da ausência de mim, de me... ter
Presente, em alma, em mente...)

Novamente, sonho o mesmo sonho contente.
Enfim, faço esta a minha partida...

Adeus, quem eu fiz menos temente.
Olá, quem ainda tem a vida perdida...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eu... tinha apenas... o sonho


Eu... tinha apenas
O sonho...

E... o sonho
Era que... soubesses

Que... no que eu
Sinto,

Talvez não expresse
Bem

Tudo aquilo que
Pareço dizer...

Meu amor...
Se eu te pedisse

Agora, por exemplo
"Podes morrer?"

Não saberias
O que procurava...

Meu amor...
Desculpa tanta confusão

Sabes o quanto eu
Digo que te amo

Mas não queiras saber
O quanto preciso de ti

Que se de amar sou tão cheio
Não queiras saber mais de mim.

Cana

Dei-me ainda cana verde
A brotar p'ra fora da terra.
E sendo de novo plenamente
Renascido, fiz-me de cana nova era.

Se estendi ramagens à luminosidade
E as minhas raízes se alargaram
O meu verde levaram-no os gases da cidade
Até que as minhas raízes importunaram.

Não sendo planta
Creio então mais na mudança
Do que em ficar aqui...

Sendo apenas adolescente
Dou por mim consciente
Que não me merecem, assim.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Outra para mandar ao caralho

Meu amor, deixa-me dizer a minha indignação
Meu amor, meu amor, minha doce paixão.

Meu amor, ainda bem que partiste por vontade própria
Que sabes, meu amor, já não podia viver sem ti.

Meu amor, agora que me vejo ausente de mim
Sei que a verdade se tentou premonitória.

Meu amor, meu amor, és outra para mandar ao caralho,
Ide agora, antes de mim, que me ralho.

Apeou-se de si

Apeou-se de si mesmo
Esperançado de se montar
Num outro ser...

Descortinada pela sua ausência
A sua chamada "existência"
Acabou por se perder.

Apeou-se de si mesmo
Logo não soube tornar.

Apeou-se
De si
Mesmo.

Perdeu-se por vontade própria
A dar à sua dor um prefixo
E de si perdeu a memória.

Apeou-se de si mesmo
Encontra agora novo assento
Retorna a si, depois de ausente...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Simples, com amor

Quanto pulsa
Quanta repulsa
Simples constatação
Necessidade e perdição...

Vento, leva-me,
Amor, cega-me.

Fruto


O que cresceu
De tal arvoredo
Um dia cedeu
A dar-se ao enredo...

Tal fruto
De viagem no chão
Ora faz furto
Ora se lhe furta o coração.

Mas se não aproveitado
Nem tentará germinar...

Triste fruto mal encontrado
Acabará por definhar...

sábado, 14 de maio de 2011

Por mim...

São erros
Que errámos
Em conjunto.

A cumplicidade
Era a suficiente
Para de ti ser
Nenhuma.

Mas a solução
Pareceu apenas
Procurada

Por mim...

Auto-proclamação


Auto-proclamo agora mesmo
Que o meu próprio sentir é mudar.

Por outras palavras,

Não me ausento de me ausentar

De em mim crer ou acreditar

Mas por mais que tudo sei

Que é melhor se fui eu que dei.
Não tomando isto como presunção

Levo apenas na minha palavra

Que eu faço com mais emoção

E entranho em mim cada acto

Tal qual seja o que é proposto

Eu faço bem, estando bem-disposto.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Navegação

Navego

E sou navegado

Pela intenção

O sonho e a vontade.

Mas o Mar

É apenas navegado

Por um barco...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Poesia amorosa e imagética

Quando eu amo.
Quando eu te amo.

No momento em que ainda te amo.

Enquanto ando,
Piso-a,
Piso a terra,
E piso-me a mim.

Em cada inspiração,
Não inspiro ar,
Mas emoção,
A nossa emoção.

E a cada beijo,
Pedido,

A cada aceno,
Perdido,

O vento parece levar-me contigo,
Na minha forma de te amar,
Na forma de me perder sozinho
Sabendo que não te sei encontrar.

Enquanto te amo.

Pois que te amo.

Enquanto contigo ando.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Como não vive ninguém


Sofro da doença
De que tantos sofrem
É apanhada, não de nascença
E a ela todos podem.

Eu padeço de a sofrer
E tenho desejo de medicar

Então, deixo-me escrever
E afogo esse não amar.

Se não acredito em mim
Hei de acreditar
E no escrever encontro o fim
Para me reabilitar.

Assim, que de prescrições estou livre
Da medicação provém o bem...

E eu escrevo como quem vive
(Ou como não vive ninguém...)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Leaving (Or re-entering?)


Saí por razão apenas minha.
Se houvesse razão tua, não caberia
Na razão que me serve sozinha.
(E era só a minha razão que queria.)

Se me mantive a cinco passos distanciado
E com a boca inerte e sem falar
Foi porque assim o quis - não foi destinado
Que eu me fosse mudar,

Mas eu não queria aí estar.
Então, se agora eu estou aqui
E tu tão facilmente me aceitas

Pergunto-me se me queres mesmo por aí...
Ou se me acolhes para me afundar em queixas
(Pois que eu já não pertenço em ti.)

sábado, 7 de maio de 2011

Não necessita de imagem

Estranha... melancolia
Estranho a... melancolia
Com que... me sinto
Com que... digo a verdade...

E... não me encontro
Sou... perdido...
Não sou recta... nem ponto
Não me vejo... decidido...

Queria... tomar a tua face
Tomar a tua face... para mim...
E... alegrar-me nela...

Mas... faz-se tarde...
E agora... por ti...
Choro... ao vê-la...

Sem título 9


Não olho para ela
Ela olha p'ra mim
E eu sou cativado a olhar...
Eu não pensava dar.

Mas afundei na tristeza
E a alegria não recuperou.
E não olhei, tenho a certeza
Que foi ela que me motivou.

Não, não procurei
Nem pensei amar
E no momento que me dei
Foi tudo por ela se dar

Percorri na verdade
Três palmos de mim
E fui filho da vontade
Que vinha de ti.

Se eu morri agora
Foi a fazer-te viver...
Pois hoje, retoma
A mim esse prazer...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Porquê rir, para quê chorar


Tento exprimir
Sem dosagem controlada
O porquê do meu rir.

Tento esconder
Na mais alta fachada
A dor, quando não sinto nada.

O meu riso é luz de que me aproveito
Melhora a minha e a vossa condição.
Em rir nos encontramos desfeitos
A chorar só se desfaz o coração...

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O que gostaria de dizer


As palavras
Não são sempre transparentes.
As palavras
São capazes de ser opacas,
Adquirem uma tonalidade fosca e baça, impenetrável pela luz
E até as gotas de água se acumulam do lado de fora das mesmas.

As palavras
Nem sempre dizem o certo
E nem sempre sabem dizer o correcto.
As palavras, que são tantas,
Podia usar destas tantas, tantas para o que quero dizer
Mas nunca, nenhuma, alguma vez iria saber
Falar tão certo como o silêncio sentido.

Destas palavras
Que escrevi agora, num momento de vontade
Na triste verdade, nenhuma ousa exprimir sequer o que sinto.
Na tela das minhas letras, não pinto
Com alma, pois a minha alma tem medo da revelação
E prefere esconder-se atrás do postigo.

Talvez um dia encontre então esse silêncio constrangedor
Que na ausência das demais palavras que teria para disparar
Me fala compreendido ao que quero, e ao que venho.

Ou então esse silêncio será sempre habitado por palavras
Escritas, impressas, e mortas na penumbra da insonoridade.
Talvez... talvez as palavras me afundem, pura maldade.

Canção de não saber cantar


Já passei o tempo
E não me deixei para trás
Acordei e de repente
Sinto-me bem capaz.

Levanto o capucho
Estico a camisola
Chove estou em apuros
Vou chegar molhado à escola.

Mas já não me interessa
Não há tempo p'ra mudar
A chuva não tem promessa
De sempre matar.

Caminho no meu passo
Ligeiramente apressado
E tento flutuar
Assim mesmo só tentar.

Da extrema vida
Do que vou pensando
Indo para a escola enquanto a água vai pingando.

Não sei já pensar
Não sei já porquê
Mas sei que ao chegar te vou voltar a ver...

Sempre atraente
Sempre a chamar
Mas eu continuo aqui, olhando do meu lugar...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O teu cheiro o meu cheiro o nosso cheiro


O teu cheiro o meu cheiro o nosso cheiro
E o cheiro que eu sinto quando sou teu
O cheiro que exalo - e o que quero!

Os teus lábios os meus lábios a nossa língua
O nosso correr os dentes fechando a míngua
O suor absorvido e o calor decadente as roupas saindo

O teu pescoço puxando à minha boca
E a minha boca ferrando-se no teu pescoço
- Oh! E tu, gritas, louca!

O meu passear as minhas mãos o teu corpo
O meu acariciar o teu mostrar o nosso sopro
A vida que criamos num olhar numa passagem num momento

Mais um prazer mais um beijo mais uma reza
Mais um deus que no fervor do amor nos despreza
E eu sinto-me beijando-te como sendo luz por dentro!

Tão loucos tão louca tão louco tão sós e unos
Tão unos e tão sós tão juntos e tantos
- Ah! E o dizer e o falar e o gemer e paramos!

Olhamo-nos agora: olhos nos olhos.
Os teus lábios fizeram-se meus
Os meus lábios trocaram com os teus...

E agora, nós somos...

Caralho! Puta desta vida!


Caralho! Puta desta vida!
Ter de ouvir o que não quero
E aceitar qualquer medida!

Raios partam, se é correcto
Que eu já não quero saber!
Esquecem-se entretanto do contexto

-E o contexto é que quero comer!
Se tenho fome quem me mói os dentes
Na sede quem me molha a barriga

Mundo de merda - inteligentes?
A esperteza destrói a porra da vida!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Poema do mar


Vem, vai... vem, vai...

O mar comigo se arrasta
E eu aprendi a arrastar-me com o mar.

Quando me sento ao pé dele, a sua brisa me basta
Para enrolar na espuma das ondas o "pensar".

O mar tira-me a máscara (qual, que não sei qual tenha
Mas por certo haverá alguma que inconscientemente mantenha)

E eu, puramente eu, sinto-me penetrar
Penetrar! Pois! No mais fundo da minha própria existência...

Caio num vazio redobrado (e não pensado!) um espaço onde não sei chegar...
Tal espaço (vazio e caiado) se tem acção por hora é dormência.

Que digo? Que vejo? Que falo? Procuro-me e sou alucinado
Com a minha própria imagem, fantasma de mim diferente

(Mas tão, tão igual ao que quero que os outros me vejam)
O meu tom a minha dúvida até o meu existir torna-se indiferente

A questão fundamental, não a encontro, aqui não a guardo
Não penso se estou a existir ou se estou a enlouquecer.

Neste espaço confinado, sinto agora apenas o amanhecer...

E tenho ainda o mar, ao meu lado.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pensamentos depreciativos à questão própria individual


Deixa que me diga em quantas noites te abomino.
Em quantas noites te lavro e te lavo e te penduro
Do outro lado da janela, na corda, pingando para o pátio do vizinho
E enquanto secas de novo pinto o muro.

Em quantas vezes eu, tão somente eu, refeito em cacos
Me aposto a mim mesmo e na sombra me deixo tombar.
Coloco a mim a questão, se são reais os factos
Que me deixam nesta condição, que me fazem assim retratar.

Que eu, por muito querendo os teus olhos
E por muito que pense abrir mão (do meu coração)
Também sei do pouco que tenho dos folhos

Da triste alma, da sua pobre canção.
Eu bem queria ouvir a parte que me diz: és feito do universo.
Mas o que me digo será: tu, a ela, não a atrairias mesmo se fosses inverso.

domingo, 1 de maio de 2011

Morrer de amor


Ah! Agora sim podes gritar
Tanto quanto queiras
Que eu não te hei de parar
E tu sem mim desesperas!

Não vou passear o dedo na ferida
E assim mais dor sentirás
E acredito que ficarás tão dolorida
Que a própria morte desejarás!

E dessa abstinência doentia
Não há de vir qualquer recobro

A noite dará lugar ao dia
Sem que eu te dê apoio

Pois que hás de afundar-te em vão
Espalhada no chão
Em tantos cacos quanto eu fiquei

E mesmo eu tendo usado fita cola
Colando-me imperfeito no original sentimento
Tu não terás nem metade da sorte! Irás embora
E do teu fado alimentarás o teu tormento!

Pois... adeus, que agora,
É um outro momento, e eu vou dormir.
A nossa dor, não se decora...
Amor? Não me faças rir!...