terça-feira, 27 de setembro de 2011

Distinção

Que despertassem cem mil vultos de pássaros negros
Pela calada da noite e que pintassem os céus de escuro
E silêncio.

O chilrear seria tinta escorrendo numa tela vazia,
Cheia de vazio e de negro
E silêncio.

A morte chegaria como um susto breve e numa partida,
Recheando os bolsos de mágoa e entrega
E silêncio.

O perdão e o pecado confundiriam-se no desconhecido das formas
E as sombras resumiriam-se ao todo do quadro que se fita,
E silêncio.

O real seria real e o incerto seria incerto,
E o incerto apareceria com o pousar de asas negras e vultos pintados
Que tinham pintado de silêncio e vazio a realidade.

domingo, 25 de setembro de 2011

Reacção, presumição

Instigador,
Ao acesso de naturalidade,
Compadece o bisturi do corte
E conota à dor a expressão neutra.

Normal como a vida quando acaba,
Que flui em nada e não flui,
Quando o é, não sendo, e é
Nada.

Reacção comum, desejo (?) honestidade,
Parca escolha das palavras, que se mancha
O pensamento no pensar, e assim se preserva
O petróleo incandescente deste gelo de emoções.

    (Troquemos por miúdos, tiremos a tampa à garrafa
    Exercendo pressão e rodando, destruindo o picotado
    E facilitando a chegada ao fim de uma sede.)

Menos que tomar por próprio o que não é,
Como a imagem do bisturi acutilando a carne,
Será o objecto da minha existência apenas
Retracção e fustigação de mim?

Não o creio, e tomo licor com gelo e travos de limão,
Na agonia de deixar palavras incolocadas como verbos,
Tentação do toque fugaz a uma realidade
Mais verdadeira.

Daímonas


Por sobre a lareira,
Numa nuvem de cruzes.
Rangendo tábuas ao passo
Dos pés ausentes.

(É criado para se acreditar,
E não abomino.)

A sua figura massacra o corpo
Pelo silêncio das bofetadas,
No rancor do sangue que pende das cavidades nasais
Com a perdição do pecado.

(Tome-se cuidado, que "Deus" perdoa,
Mas eu, ele, não,)

sábado, 24 de setembro de 2011

Vagueio

(Imagem : http://1.bp.blogspot.com/_Nr5BHFR-SGw/S7vlIaUel6I/AAAAAAAAAIc/rINzTtNJ-68/s1600/OuropretoB.jpg )

Locomoção activada pela batida das zero
E principio aqui e agora,
No momento do nada e no momento do fim.

A parede é branca, mas está negra. (Escuridão.
Se tu roçasses os sons daquilo que penso,
Dirias que isto não tem sequer segredos.)

O pior é esta vontade de adormecer, e parece que não consigo.
No entretanto de acreditar que adormeço, acorda a fome.
Levanto-me para ir à cozinha, não acendo a luz.

(E está tudo escuro. Em criança vejo esquinas de terror,
Mas tu estendes os braços enquanto eu vou na direcção das bolachas,
Enquanto dizes, e repetes: não tem segredos, não tem segredos.)

Mas desde que o fim começou, que tudo tem um segredo.
Procuro em tudo um segredo para uma felicidade ausente.
E tudo hoje tem segredos. Menos a escuridão.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Tirado à força

Tu, eras assim.
Como a simplicidade das coisas.
Simples e bela, sempre,
Livre. Eras pura liberdade.

Na expressão máxima do teu desejo,
Não cabiam palavras.
Nunca, nenhumas. Sempre ausentes.
Os teus olhos para tudo chegavam.

Ou quando sorrias. Quando sorrias,
E o céu parecia vivo e mais azul,
E mais vivo e o azul pintado e refractado,
Uma cadeia de cores e tropeções.

Tudo isto, arrancando da memória
A ilusão de seres presente.
De seres árvore, perene, estática,
E crescer em tanto, tanta beleza.

Mas nada disso, e iludo-me enganado.
Esse corpo não é pinheiro nem sobreiro,
Desmitificando-se assim o castanho dos teus olhos,
O doce enrolado castanho dos teus cabelos.

Demência


Três estrofes, e só para a mesma coisa:
Para ti, para ti, para ti.

As linhas do caderno, são carpos metacarpos falanges falanginhas falangetas,
Cobertas de pele de papel e carne de tinta,
E eu as agarro porque enfim.

Escrevo outro verso: e logo paro, fiquemos por aqui.
Agora fico no silêncio das tuas mãos de mente.
Demente, mentira, mentira, mentira.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Obscuro deslumbramento


A precisar de mudança.

Aponto o dedo à tua cara,
Não importa o que pensas.

Se te percorro em caso imaginado,
Tudo é meu, meu, meu, aqui guardado,

Tu não sabes nem parte do que penso.
De partilhar o meu franzir, dispenso.

Sorrio, como caveira, morte possuída,
No mais obscuro do que penso da vida.

(Dá-me tanto gozo aqueles momentos de pura escuridão,
Em que me liberto até do meu próprio fardo,
E o meu corpo, não é mais senão
Ferramenta de enorme combustão.)

domingo, 18 de setembro de 2011

Reacção comum, querida


Realmente, o que te digo
É sempre nada.
Mas quando te vou falar
Tenho imenso para dizer.

    Ora, desculpa, se achas mal
    Estar tão cheio de palavras,
    E nada de real te dar.

Mas foi noutros tempos que eu soube
Que te iria dizer todos os dias como és bonita.
Só que eu entretanto cresci,
E hoje acho que preciso de palavras mais sublimes.

    Mas tu és mesmo bonita, sabes?
    Não importa o relógio do tempo.
    A minha criança acha-te sempre linda
    Seja por fora, ou por dentro.

Esta é a minha verdade.

Divagação, no campo


E quase dizemos as coisas,
E quase funcionamos.

Mas não há dor maior
Que a sentida.

A ordem aparente
É caos,
E a tentativa de justiça
É traição ao semelhante.

Pois ninguém sabe menos de si
Do que quem prende,
Que abafa gritos e choro
Porque lhe faz melhor.

E se metade que há caiu na asneira
De crer em si
Uno,
Mil rezas para que a si venha cura.

Que os que inalcançáveis caminham
Tornam seu o vislumbrado
E chamam à "morte"
A produção da "vida".

E não interessa quantos protestos, nem críticas.
Quem se sabe a tudo ligado
Compreende em tais ideias a sua aversão;
Não sabe o certo, mas distingue o errado.

Mas quase se faz algo,
E quase se consegue falar.

Estranha pretensão.
A de
Não querer
Fazer nada.

Dos outros, não sei e não falo.
Mas eu, sempre que paro
Sou assolado pelo bocejo
E convidado a dormir para sempre.

É que,
Se aqui estou
É para alguma coisa fazer.
Para saber. Para viver.

Não importam quantas alegrias há no mundo,
Se nenhum dos vivos sabe chorar
Ou não sente a dor e a perda
Quando parte um bem-amado.

E eu não creio em Deus,
Não creio no que diz a Bíblia.
Mas sei que fala de sofrimento, e ajuda.
Um acontecimento, importante.

Mas se nada acode à ganância
E ao querer mais
E mais
E mais

Para que serve alimentar de intrigas
Quem só quer o bem para si
E para os outros,
Não se dizendo "só"?

A vida, essa, é nossa.
À morte não podemos nada.
Seja feita agora a nossa justiça.
Mas como?

Se todo o Homem é corrompido?
Não neguem, minha gente.
Pois tudo o que mexe um desejo traz consigo,
Um pouco de penumbra é presente, permanente.

E eu, se calhar, pereço agora.
Pereço da paz e da calma que sinto.
Eu não sei se a árvore me adora.
Mas quando lhe confesso isso, não minto.

sábado, 17 de setembro de 2011

Time Stops


E de repente,
Tudo se ausenta.
Sinto-me sozinho.
(Se em paz,
Estado?
Não sei.)

Mas,
Só sei que
De repente me sinto sozinho,
(Introduza-se neste espaço...
Umas quantas metáforas
Para maquilhar o conteúdo.)
E é assim,
Só,

Ausente,
Sem precisar de som,
Ou de dizer,
Que me percebo.
Não sei o que mais dizer:
Sei que sinto, este perceber.
E o movimento é na penumbra,
Só que tão iluminado
Que a simplicidade assusta.

While hearing: (Band) Explosions In The Sky - (Album)  How Strange, Innocence - (Track) Time Stops

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Oeuf

São todos uns toscos
Mas querem fazer-se de bons.

Aquele e aquele e aquele
Criticam uma crítica podre
Que em nada ajuda a crescer,
Destroem aquilo que se pode,
E o que não pode tentam mexer.

Meia dúzia de sorriso emprestado
Passa outra caixa de ovos sisuda,
Vendo tanto ovo alegrado
Partem-lhes a casca dura.

Meio milhão de contentes
Meio milhão de infelizes
Uns alegres e toscos
Outros toscos e tristes.

Tudo à confusão no mesmo plano,
Ninguém quer a face alheia pintada.
Se choram apenas partilham pranto,
Se sorriem não partilham nada!

Voi̱thós

Vou-te criar
Dez mil anjos de palavras cruzadas
Mais uns milhares de ajudantes
Depositar quantos Prometeus precises para dares chama à vida
E rabiscar o desconcerto que não compreendes.

Vou simplesmente dar-te
Três banhos por semana com palavras ensaboadas
E esfregar-te as costas com panos aquecidos;
Segredar-te tantos segredos quanto o teu avanço
E elevar-te com pé de ladrão por cima do obstáculo.

Mas eu não o farei.

Tu o hás de fazer, sozinho,
E tu sozinho hás de cair, e errar, e sofrer,
E entrar num ciclo, vicioso, de loucura,
Uma tentativa desesperada de alcançar uma vitória, um lugar ao sol.
Para ti apenas as palavras que admiras sem compreender, darei.

domingo, 11 de setembro de 2011

Desta vez, bebes tu o café


(Imagina, que em vez de leres
Agarras a colher que eu imagino
E mexes tu a bebida que a empregada traz,
Agradecendo um pensativo desconforto.

Sopras, está quente o café
E achas que o açúcar não chega.
Deitas mais.
E voltas a rodar a colher.)


Lembraste de toda a gente
Lá fora?

Quando passaste no metro
Estendeu a mão
E não falou:
Gemeu.

E tu, tu não esfarelaste o miolo
Tu não te achaste capaz
De mudar
Nada.

Lembraste?
Então

Porque é que agora
Olhas para esse café
Com desdém,
E lhe chamas um vício?

sábado, 10 de setembro de 2011

Revelações que o café quente traz enquanto se beberica


Interessante.
Interessante já não é ficar parado nas minhas ideias,
Também não é pôr as ideias a rolar.

O interessante agora é praticar.

Querer pôr o momento num frasco
E esgotá-lo
Até ao descascar da semente

Já não é opção.

Mas agarrar o momento
(Como quem agarra um passarinho)
Acarinhando cada oportunidade

É algo que talvez seja mais proveitoso.

Agora, entendo (um pouco) a inexistência do tempo
E a ilusão tão complicada de cada homem.

E sabes, falando directo para ti:
Que eu queria apenas procurar-te com os dedos
E germinar na tua face toques de alegria
Formando as curvas do teu sorriso
Assim um pouco como a espuma do café,
Em lapsos de liberdade,
Em que tu me dás a mão
Apenas quando tens vontade,
E o resto do que vivemos
Sou eu que te agarro,
Enquanto quero
Enquanto posso.

Por agora espero,
E mexo o café,
Sonhando o teu sorriso na espuma.
Tão real que bebo devagar,
Devagarinho.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O culminar do sabor amargo


Nova estadia na pousada do café.
Novamente o vício a voltar.
Duas colheres de açúcar, caneta,
Meio litro de papel p'ra rabiscar e
Um quilo de pensamento funesto,
Para deitar abaixo o golo amargo
Do rebuçado que acompanha o pires.

É como...
Querer ver no cu da chávena
Uma palavra tatuada
Entre coxas de porcelana,

E chamar-lhe esperança,
Mendigar de improviso a sorte
Esperando que o dia se abra
E o sol caia sobre a morte.

domingo, 4 de setembro de 2011

Hoje esqueci o vicío do café e pedi antes um cappuccino, para variar


Vazio.
À chegada, ao chegares,
Vira à décima segunda curva da minha decepção,
Vai directa ao cruzamento da insónia
E toma a direcção da placa cimeira, queimada.


Não encontres movimento no vento, que mente,
A cada passagem aponta o local que não escolhi.
Toma a estrada de chagas e cinzas e areia e cascalho
Até chegares ao portão de ferrugem da minha condição,
E abre-o e irrompe e toma espaço para ti.

Abre as latas de tinta e pinta alçapões camuflados.
Não te esqueças de olear as portas e as esquinas do peito,
Agarra o peluche que me adormecia pelos sovacos de quem sonha,
E tomba por fim na cama que deixei por fazer.
Tudo está como quando eu deixei de estar.


Vazio.

sábado, 3 de setembro de 2011

Hum... hoje, um galão. E um croissant de ovo! Cá está, volto depois


Seriam as metas objectivos?
Os objectivos querem-se dificeís,
Mas de alcance indisputável,
Fitas vermelhas a pedir uma tesoura na mão.

E cada pedra, afinal, é calçada,
Um desenho feito para ser pisado,
Decorado de tijolos sobrepostos e varandas regurgitadas
Para um vazio aéreo de olhares atentos.

Cada suspiro, cada laço, cada horizonte
Amontoa-se a juzante, na foz, no imenso.

Objectivos inalcançáveis
Até se ter um barco.

É o último que tomo hoje. Há, e aqui está o que bebi há pouco, pago agora


Ainda que a cama seja confortável
O corte é profundo
E a agonia imensa.

    Trato-te por tu,
    Tratar-te por eu seria difícil,
    E de momento não és medo, és presença.


Por entre as paredes do orgânico
Irrompem ajudantes de palco
A travar em vão a hemorragia.

    Vem, deita-te comigo.
    Já me levaste, não tenho com quem me deitar.
    Ao menos, que descanse no teu colo.

    Olha: são as horas indiferentes agora.
    A hora em que me chegaste já está anotada.
    Mas espera, espera, tenhamos calma.
    Deixa-me descansar ao teu colo.

    Deixa-me descansar, que vivi muito tempo.

Este que tomei, pago amanhã, que hoje não trouxe a carteira


Cansei-me.

Cansei-me de pintar quadros surreais
De um sorriso de cristais polidos.

(Afinal, talvez tenha perdido o meu ser
Para um outro ser,
Que agora eu.)

Diziam que "fosse sempre eu",
Mas "eu" era parvo,
Logo o "eu" mudou.

Eu,
Eu sou parvo,
Mas muito se alterou.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Tomo outro, que demora

Três e meia.
E eu,
Ainda aqui, no café

Desenhando cafés em guardanapos
Sujos
Por borras de paciência.

Tostas de esperas eternas,
Espalhadas em
Migalhas de decepção.

(Só espero mais 10 minutos.)

E eis que chegas, ensopada
Abres os dentes e pedes um leite
Para tingir o granito dos teus lábios.

Pedes desculpa pela demora,
E eu digo: "não faz mal",
Mas os meus lábios sabem a café.