sábado, 29 de outubro de 2011

Algo como sei lá


                Se queimo o Sol resta-me a Lua e um imenso pesar. Não há luar nem estrela ou constelação que após tal inaturalidade se mostre astro mais brilhante aos olhos meus do que a morte do meu Sol, queimado.
                E não foi preciso perdê-lo para o temer: foi bastante pensá-lo perdido para sentir um pavor negro corromper-me cada capilar que o meu pulsar alimenta.
                Será talvez esta a forma das coisas mais preciosas: saudade, um irreal estar quando a presença são cacos de poeira e cinzas de um fogo outrora vida.
                Não há depois fogo que consuma cinzas: e esse é um problema estelar. Que se transforma o peito em buraco negro ou num anão descolorado; não importam fins depois de um fim, se não são o começo de uma energia mais ampla.
                Se buraco: tudo absorve, nada deixe, e corrompe, corrompe tudo até aos degraus da sua corrupção; talvez na esperança de que alguém se sente nessa parte das escadas, para poder fatigar-se a mente com o rejúbilo do contacto.
                Se anão, tão só, fechado em puras paredes de giz, como um ponto na cardósia, a energia que tem é nenhuma e o movimento oscila entre o parado e o morto que se está.
                Não almejo estas condições de realidade demasiadamente trabalhada. Oh, não: esta realidade eu trabalho-a da forma que eu bem entender; o céu há de ser verde mesmo que o Sol não banhe os oceanos nos seus corais, nas suas conchas e nos seus cabelos loiros, que pendem desde longitudes inalcançáveis; mesmo o fogo há de lavrar terras e os rios hão de sepultar vales.
                Máscaras, se precisas, serão todas elas minhas para que eu mais facilmente veja transparências; não quero chocar com invisibilidades como os vidros de um stand automóvel, impecavelmente lavados e de uma sinistralidade infantil razoável.

domingo, 23 de outubro de 2011

Parece que tem que sangrar até a alma para sair


Quisesse eu mesmo que fossem palavras:
Não dá sequer para tentar alimentar gritos com isto.
Nem sequer a boca humedece : a garganta, seca.
Parece que estala, como o chão despido no verão.

Portanto, sei que os lábios são vermelhos,
E roxos, rosa, pálidos, sem vida e exuberantes.
Se pegar num pincel e o passar pelos lábios
Não agarro cor nenhuma, nem cuspo palavras.

Custa é mais a crer que o sangue seja vermelho,
E roxo, rosa, pálido, sem vida e exuberante.
Diria quase que são como os lábios de fora.
Por todo eu pulsa, mas não sai. Contém-se.

sábado, 22 de outubro de 2011

Aspersão, há falta de título melhor


Passo por passar.
Porque eu nada conheço: nem a tua forma
Nem o teu cabelo,
Nem o teu sorriso,
Nem o teu nada quando respiras.

Mas sou doido: tento aspirar o teu silêncio,
E transformá-lo em palavras minhas,
Ditá-las como se fossem feridas abertas
Regadas com sal e de sofrimento tamanho
Que a inspiração corre pela cara.

Estranho será saber-me estranho.
Seria mais normal existir a negligência,
Não tomar conta desta parte de mim.
Mas que dizer de quando eu próprio a conheço?
Tudo o que eu não conheço, é a ti...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Try out die now

I love you.
Like lips,
A salad
And three apples.

I don't know why.
That, I can't tell.
You are a tree to me.
You made my roots.

In your eyes,
I see black holes.
Everytime you stare at me,
I drown.

You turn me black.
For you I disappear,
As I love you so much
That you are happiness in a tear.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pensamentos quedados


Campos e campos de sementes de tempestade,
Eu passo e abaixo-me e apalpo a terra
Da mesma forma que eu te penso apalpar,
Enquanto galgo curvas de lama e recolho ventos ao chão.

Reparo que as folhas caem, e que tudo cai nesta morte incompreensível
E estendo a mão direita, toda cagada a escorrer água e terra e ventos pequenos
Para esmigalhar restos de folhas castanhas nas mãos, a tentar descobrir verde
E o castanho fica cagado da lama e voa-me das mãos com os ventos que colhi.

Este episódio, semi-erótico, que eu nem apalpava chão mas deitava-me na relva
De no meio de uma estranha fantasia, cai uma folha, somente uma, logo no certo sítio
E eu contemplo-a como se tivesse toda a expressão da vida, e apercebo-me que a tem
E sei que é certo e sabido que eu caia que nem folha e que mão alguma me salve.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Nice to meet you

 http://www.suckatlife.com/images/fullNiceToMeetYou.jpg
Queria o acaso,
Num vendaval espontâneo
Portas de fantasmas à maçaneta
E entraves de língua morta, sono pesado.
Uma marca oposta, diferente, contudo,
(Preto no branco, tinta húmida,
Pincéis molhados e cores misturadas,
Um cinzento multicolor por produto)
Contudo próxima, de quê (de quem?)
Dezoito milhões de pixeis descompostos
E se percebe que o pensamento
É como brisa, sugando a alma em perpétuo movimento para diante.

Tomem-se as palavras
(Como cafés,
E ovos moles.
Ah, ovos moles!)
Um remoer e mastigar, por vezes sem resposta,
Perplexo um pensamento, e a vista não se traduz.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Atomicidade


puta
estava sentada
era um vulto
mas era grande
crescia
ah, crescia imenso
sai sua vaca
sai!
antes que eu te parta o focinho
ah que grande merda
corróis-me a mente
porque raio te hei de pensar
sai
vai-te pela sombra
os teus braços
ossudos
os teus dedos
ossudos
o teu toque
nada
só resta nada do teu toque
vai-te por onde vieste
não é por mim
não
não tinha jeito de te temer se fosse por mim
mas temo-te por mim
porque ao tocares
na outra pele
me matas
e eu fico vivo nesta merda de corpo
a desejar sentir
e sempre a saber-me morto
foge de mim
foge
desaparece!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

(P)


Abre a porta
P'ra que vem, mas p'ra que vem
Não importa a presença de
Já cá estar,
Estas coisas ensina-se lá para fora
Assim como assim bater primeiro
Aspergir boa-educação antes de rodar a maçaneta
Mas só lá fora, cá dentro esquece
Não importa, está tudo ensonado
Se me chatear leva uma caralhada
E que se foda, mijo no bidé se houver alguém na sanita
Quando sair a ver se me lembro de lavar as mãos
Ah já fechei a porta e esqueci-me
Tou-me a cagar e não me interessa
Não estou lá fora
Vou à cozinha ficar em pé em frente ao frigorífico
Não há nada de jeito para comer
Apetece-me leite bebo do pacote
Também ninguém viu
Se visse também pouco me importava
Mas bom se houvesse cereais isto ainda lá ia
Enfim
Só a porta do quarto é que está fechada
Mas sempre que volto tenho a janela aberta e não gosto
Porque depois entram bichos e eu não gosto
E obrigam-me a fechar a janela aos pontapés
Está tudo espalhado pelo chão
O meu sofá serve para empilhar roupa
Quando precisar de me vestir meto a roupa para lavar
E fodace deixa-me em paz
Não viste que tinha a porta fechada
Põe-te na alheta
Sim estive a falar com ela
Já tou farto
De quem de ti seu nabo
Sim adeus fazes bem
Estava a ver que não...

domingo, 2 de outubro de 2011

De pé, ao canto.


 De pé, ao canto,
Portas de gigante ao caminho.
Peso demais para abrir
Um vislumbre.

De que falo? Que digo?
Escorre petróleo de dentro de mim.
Massa viscosa, negra e líquida.
Incendiável, explosão violenta.

Talvez um escuro de absorver.
(Não sei quem me compreenda.)
Portas de gigante ao caminho.
Peso demais para abrir.

Parca a compreensão.
A chave está debaixo do tapete.
A fechadura está apenas alta.
O crescimento não é bastante.

Tombam pingos de negrume lá do alto.
Talvez caindo nos olhos. Conte-se a invisibilidade.
Quem saiba isso perturbe o cálcio nos ossos.
Ou é a visão fosca logo por natureza.

sábado, 1 de outubro de 2011

Oitos e peixes

(Imagem retirada de: http://www.keithdriscoll.com/demo.html )

Pobre este estado de solidão na presença dela.
Parco é o entendimento do olhar, que tudo confunde
Vislumbrando jarras vertendo névoa
Para o fundo do amanhecer.

Oitos, e peixes,
Os peixes, desenhando oitos,
Como se calculassem perfeitas contas de somar.
Oitos e zeros, oitos e zeros.

Ao toque deforma-se a precisão matemática
Dos oitos, dos zeros,
Numa propagação de ondas
Piscícula.

Como tudo se deforma ao toque.
Pobre, este estado de solidão.
Quando toca, sopra ondas.
Não afecta esta pedra de abstracção.