segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Se eu não chegar

Estou obcecado em parar,
Em parar e ficar parado:
Não me chega, não quero mais,
Se eu não chegar a nenhum lado.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pululo


Sabes, querida, que já nem sei falar.
É uma alegria,
Esta monotonia consciente:
Uma segurança constante, mão agarrada.


E às vezes, sei que não guardo nada,
Que tudo parte de mim
Ou que antes disso me parto eu,
Sempre com a sensação de que me esqueci de algo.

E é triste, querida, este não saber falar,
Esta monótona segurança constante,
Um abrigo abeirado ao penhasco
Para tomar coragem e saltar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pedra rocha penedo

Que são, nada é.
Enquanto o cascalho roda e pula rochedo abaixo
A cabra salta e corre, ou se arrasta.

Que seja assim, se não é.
Que seja eu mesmo cascalho, num qualquer rochedo
Cascalho de cascos e pêlos e narinas ao rubro.

Que se for, não importa.
Hei de desfalecer em tentativa, ao subir
E ser cascalho de ossos e peles lá no fundo.

domingo, 13 de novembro de 2011

Oh nicey


Deixa lá,
Nenhuma parte de mim responde.
Já tive ânsia de ser de ter de poder
Agora é uma estranha calmaria.

Deixo postigos abertos para correr persianas,
Que talvez não interesse nada cá dentro.
Se sim, é deixado polvilhado num lado qualquer
Num pó de carvão ou tinta barata.

E acodem-me grilhetas e ferro, chumbo
E o que mais me torne pesado.
Sou um pesadelo, um pesadelo
Acorrentado ao passado.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Picturize this











Deixa-me gritar isto ao teu lado.

Que este silêncio
É parede e muro
Separação,
Eu tenho algo para dizer.

Por momentos
Os teus olhos foram mais verdes que a selva
E no seio da chuva
Eu parei sem saber falar

Algo brotou.
Não sei o que foi
Mas algo brotou.

Cá dentro
Não
Aí fora.

Porque foi aí
Que eu te vi
Os olhos mais verdes

E eu todo num momento
Fui a rua.

Fui a rua.

Fui a rua,
Que os teus olhos
Pintam
De verde.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

--//--


         Levantou-se. Dir-se-ia que esticava os dedos e algo alcançava – mas se dava a mão, quem a segurava no vazio daquela penumbra? Talvez seja coisa da noite, maluquices que se esvaem das entranhas dos pesadelos mais estranhos – sim, porque era nos seus pesadelos que ele a perdia, era nesses que tinha de estender os braços e fazer uma força que o esmagava, cortava, desmembrava, que o reduzia a pedaços de saudade e desejo.
         E abrir os olhos não significava algo muito melhor – então, ele olhava para o fundo da sua própria noite, e via-se pejado de candeeiros, luzes fúteis, e nem uma constelação que o acomodasse a um canto, a um vislumbre propositado. O escuro apenas pedia um revolver dos lençóis e um puxar dos cobertores – está frio e tem de voltar a adormecer.
         As aulas são um refúgio estranho, quando todo ele é estranho, quando até a si mesmo se estranha. Não sabe se se entranha. Não que isso importe: puxar os olhos até o eclodir da rotina, para tentar reparar num tipo diferente de reflexo da luz da chuva nas poças lá fora – isso, isso sim importa, que os outros, que valor mais que o de terra mal lavada ainda podem ter?
         Não importa sequer o que pensa ou as imagens que lhe acodem na variável queda. Quem as entenda que se contente com o silêncio de um sorriso – vale mais falar de coisas contentes e felizes, dá mais jeito. E os que tentem perceber: ao menos isso.
         Desenha uma bola, um parênteses, dois pontos. Isto é uma das boas coisas dos dias frios e chuvosos: o vidro da camioneta é uma prancheta enorme de desenho.  Ao menos aqui já os candeeiros se apagaram com a proeminente luminosidade do romper do dia. Que lhe tome o sono – às vezes vale a pena pensar que ninguém mais interessa. E os que interessam, esses, valem a pena. Assim se espera, pois claro.
         Já não sabe se o querer saber vale também o esforço – parece que as coisas fazem tudo para ser vistas e reconhecidas, para ser cumprimentadas e faladas com um certo gosto – mas basta essa pequena vaidade para se dar o desinteresse da coisa. Não, não, o que se quer é algo difícil, um jogo interminável, um ciclo de linhas paralelas – tudo menos tocar. Não, tocar não – se não nada vale a pena.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Telofase, Citocinese

Chega-te p'ra lá que já passámos a fase transformada
O que foi já foi e agora não é nada,
Quero enfiar os olhos no meio da almofada e pensar que acabou,
Não me interessa, se foi mau, se foi bom,

Tenho uma claque de enzimas para me descoser
A cada lembrança acabo por te perder
E a tua cara é um perfume ancestral
De ti não guardo muito mais do que aquilo que correu mal.

(É estranho que o que mais bom tenha sido
Só venha se eu me sujeitar a ser espremido)