terça-feira, 8 de novembro de 2011

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         Levantou-se. Dir-se-ia que esticava os dedos e algo alcançava – mas se dava a mão, quem a segurava no vazio daquela penumbra? Talvez seja coisa da noite, maluquices que se esvaem das entranhas dos pesadelos mais estranhos – sim, porque era nos seus pesadelos que ele a perdia, era nesses que tinha de estender os braços e fazer uma força que o esmagava, cortava, desmembrava, que o reduzia a pedaços de saudade e desejo.
         E abrir os olhos não significava algo muito melhor – então, ele olhava para o fundo da sua própria noite, e via-se pejado de candeeiros, luzes fúteis, e nem uma constelação que o acomodasse a um canto, a um vislumbre propositado. O escuro apenas pedia um revolver dos lençóis e um puxar dos cobertores – está frio e tem de voltar a adormecer.
         As aulas são um refúgio estranho, quando todo ele é estranho, quando até a si mesmo se estranha. Não sabe se se entranha. Não que isso importe: puxar os olhos até o eclodir da rotina, para tentar reparar num tipo diferente de reflexo da luz da chuva nas poças lá fora – isso, isso sim importa, que os outros, que valor mais que o de terra mal lavada ainda podem ter?
         Não importa sequer o que pensa ou as imagens que lhe acodem na variável queda. Quem as entenda que se contente com o silêncio de um sorriso – vale mais falar de coisas contentes e felizes, dá mais jeito. E os que tentem perceber: ao menos isso.
         Desenha uma bola, um parênteses, dois pontos. Isto é uma das boas coisas dos dias frios e chuvosos: o vidro da camioneta é uma prancheta enorme de desenho.  Ao menos aqui já os candeeiros se apagaram com a proeminente luminosidade do romper do dia. Que lhe tome o sono – às vezes vale a pena pensar que ninguém mais interessa. E os que interessam, esses, valem a pena. Assim se espera, pois claro.
         Já não sabe se o querer saber vale também o esforço – parece que as coisas fazem tudo para ser vistas e reconhecidas, para ser cumprimentadas e faladas com um certo gosto – mas basta essa pequena vaidade para se dar o desinteresse da coisa. Não, não, o que se quer é algo difícil, um jogo interminável, um ciclo de linhas paralelas – tudo menos tocar. Não, tocar não – se não nada vale a pena.

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