sábado, 21 de janeiro de 2012

O filho do homem


T
al como existem homens que inspiram, existem homens que se deixam inspirar. Esta história é sobre um desses filhos do homem que tomou as palavras de outro e as quis tornar suas.
         O filho do homem vivia num berço, protegido do mundo e apreciador dos vendavais que rugiam para lá das janelas. Tinha um rádio na sua escrivaninha, que era castanha como as árvores que abanavam com o vento lá fora, e quase sempre se cobria de folhas brancas rabiscadas. Dormia numa cama que todas as manhãs se fazia sozinha, entre o sair dela e o lavar a cara na casa de banho. Quando descia as escadas para a sala, tinha um pequeno-almoço preparado e um lanche para levar para a escola.
         Mas o filho do homem sentia-se triste. Achava-se um desgraçado quando o pão do lanche não vinha barrado com chocolate e quando os atacadores dos ténis se descosiam nas pontas. Então, o filho do homem maldizia o seu infeliz destino, a sua tremenda dor e a sua imensa desgraça, porque os ténis já não prestavam e o pão era de manteiga e fiambre. Fechava-se no seu quarto com a escrivaninha castanha, como as árvores que abanavam ao vento, e as suas folhas por rabiscar, e ligava o rádio muito alto, para dizer que não gostava da forma como os seus ténis agora já não estavam na moda e o pão lhe tinha sabido tão mal.
         Depois, na manhã seguinte, quando voltava de lavar a cara, a cama já estava feita. Quando descia as escadas, o pequeno-almoço esperava-o em cima da mesa e o lanche aguardava junto da mochila. Mas os atacadores dos ténis continuavam descosidos nas pontas e o filho do homem zangava-se por não lhe terem também oferecido uns ténis novos, em que os atacadores fossem tão dentro da moda que nem se descosessem.
         E o filho do homem ia para a escola zangado, porque espreitara o lanche e era outra vez pão com manteiga e fiambre.
         Um dia, o filho do homem, amuado por ter os ténis fora de moda e o lanche barrado a manteiga, fez tudo o que fazia quando se sentia desgraçado e infeliz, e fechou-se no quarto, ligou o rádio muito alto e deitou-se na cama feita, esperando que lhe trouxessem ténis na moda e pão barrado a chocolate.
         Por acaso, nessa vez, o rádio não vomitava a música habitual; mas um qualquer homem, desses que as pessoas dizem que têm importância sem serem importantes, dava uma entrevista à estação. O filho do homem tinha demasiada preguiça para sintonizar o rádio para outra estação, e esperou que algo o fizesse por ele, tal como a cama se fazia sozinha quando ele ia lavar a cara. Mas o rádio não mudou, e o filho do homem ficou a ouvir aquele homem a falar sobre o resto do mundo que não comia pão barrado a chocolate e não usava ténis de marca, sobre o outro mundo que abanava com o vento tal como as árvores da cor da escrivaninha e que dormia numa cama sempre feita, de terra e palha.
         Ao princípio, o filho do homem achou que aquela fosse uma fantasia qualquer de um homem sem juízo ou uma história para adormecer crianças inocentes. E riu-se quando o homem falou de como famílias inteiras comiam um mísero saco de feijão por semana e como essa família tinha de percorrer dezenas de quilómetros a caminhar, para encher um bidão com água.
         Porque tudo isto não podia ser verdade: o filho do homem tinha carro, tal como toda a gente, e a água vinha da torneira, tal como a de toda a gente, e nem sequer comia feijão, como toda a gente. Então riu-se, porque o homem tinha muita imaginação, até para imaginar sítios em que os únicos carros que havia eram de linhas que remendavam vestimentas pobres ou feridas que teimavam em não sarar.
         Mas, no fim de escutar as fantasias do homem que tinha importância sem ser importante, este fechou a sua entrevista dizendo: “E há quem não se aperceba disto, desta pobreza e desta infelicidade, e que por isso não percebe a verdade de um sorriso quando se dá uma garrafa de água, porque há quem nunca tenha visto ou vivido isto.” Estas palavras intrigaram o amuado filho do homem, que esquecera por momentos a desgraça dos atacadores descosidos. Então, o filho do homem levantou-se e foi até ao escritório da casa, sentou-se ao computador e pesquisou por palavras absurdas como “pobreza”, “fome” e “miséria”.
         O filho do homem viu, então, crianças em que os ossos se viam e famílias que comiam um saco de feijão por semana enquanto todos os dias percorriam dezenas de quilómetros para encher um bidão com água. Viu casas que abanavam como as árvores que abanavam ao vento, lá fora. Até que, numa das imagens, viu um outro filho do homem, que segurava uma côdea de pão bolorento, sem manteiga, sem fiambre e sem chocolate, mas que sorria como se lhe tivessem dado uns ténis tão dentro da moda que nem os seus atacadores se descosiam.
         Porém, o filho do homem não sabia ainda qual era a verdade daquelas imagens: podiam ser como os filmes, em que tudo podia ser verdade ou mentira, em que os homens mexiam no computador para criar magias e objectos voadores que não voam.
         Então o filho do homem decidiu pedir, em vez do pão barrado a chocolate ou os atacadores super modernos, para ver estas crianças que sorriam por tão pouco e estas famílias que caminhavam tanto por um bidão de água, que tão facilmente podiam tirar da torneira. O filho do homem pensou que tinha de viajar para longe, para muito longe, pois todos os outros filhos do homem que conhecia tinham carro, tal como ele, tinham água da torneira, tal como ele, e não comiam sequer feijão, tal como ele.
         Mas surpreendeu-se quando viajou para perto e viu como algumas crianças comiam ao pequeno-almoço uma côdea de pão e ao jantar o resto do pequeno-almoço. O filho do homem olhou para os atacadores descosidos dos seus ténis de marca e pensou em quantas côdeas de pão ele levava nos pés. O filho do homem pensou no sabor do pão com manteiga e fiambre, e em como uma criança com uma côdea bolorenta sorria mais do que ele alguma vez sorrira por um pão com chocolate.
         Então o filho do homem apercebeu-se que vivia num berço, e que a sua cama se fazia sozinha enquanto ia lavar a cara e o seu pequeno-almoço esperava por ele na mesa enquanto o lanche aguardava junto da mochila. Então, o filho do homem apercebeu-se que as árvores castanhas como a escrivaninha do seu quarto abanavam juntamente com as casas das crianças que sorriam por uma côdea escura.
         O filho do homem foi procurar o homem que tinha importância sem ser importante e descobriu como ele pedia às pessoas um saco de feijão para alimentar uma família que caminhava dezenas de quilómetros por um bidão de água, e desta vez pediu para poder ajudar este homem a saciar a fome das crianças que sorriam por uma côdea de pão ao pequeno-almoço. O filho do homem viu como os seus ténis não eram tão confortáveis como um pão com fiambre e como nem uns atacadores super modernos podiam mudar isso, e envergonhou-se de todas as vezes em que fizera birra por tão pequenas coisas.
         Então, o filho do homem tornou-se consciente e começou a ver que o mundo não era apenas ele, que não comia feijão e que tinha água da torneira, mas sim também famílias que caminhavam tardes inteiras por um bidão de água. E o filho do homem conheceu a Esperança e a Mudança: aprendeu como elas residiam nele e em quantos se tornam conscientes do mundo.

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