domingo, 25 de novembro de 2012

Sto Amador



A ponte da minha aldeia
Ensinou-me que há fantasmas.

Pois que ela é de mil e setecentos
E nela os mortos caminham.

Essa ponte, caiada de branco
Liga o caminho ao caminho
Que dá ao cemitério.

Por isso que a ponte da minha aldeia
Me ensina que há fantasmas

Uns que caminharam até lá antes
Uns que continuam indo por dentro de alguém.

(Só essa ponte sabe
Que o momento é sempre o presente
E que por ela passa toda a gente.)

sábado, 24 de novembro de 2012

in Alentejo



Eu sei bem:
Há quem agrade com as palavras
Com uma singeleza que não é própria de mim.

Socorrem-se de metáforas
Que eu nunca me lembraria e
Assim trazem dormentes em cestos quem lê.

Só não sei o quanto importa isso
Ou se importa tanto.
O que escrevo é meu e assim não é de mais ninguém
Até que venha quem tome o meu para si.

Gostar é algo que discorre da compreensão.

Se não se sabe o que se diz
Só se pode não gostar porque não se percebe
E essa não é justificação suficiente para
Que algo não preste.

domingo, 18 de novembro de 2012

Histeria



O problema começou no primeiro olhar
Soubeste logo quem eu era.

Das vezes que estivemos
Decidi abandonar
Por medo de que não servisse.

Agora, se quero falar-te
Já sei que trazes as minhas respostas contigo.

Por isso não sei se deva
Tentar entregar e abandonar
Virá.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Shh

eu já percebi que isto de escrever é um falhanço.
não é ser poeta que falha (que eu nem sou sequer tanto)
é a antes a falha que há sem ser-se poeta
(e remeto para o verso dois da estrofe presente)

eu vou explicar da minha justiça o porquê de não resultar:
simplesmente pelo que escrevi ainda agora. e a minha justiça
pode não agradar a toda a gente, como tantas vezes não me agrada
a mim, quando a releio passado um tempo qualquer.

claro que às vezes escrevo e aquilo nem faz sentido total no momento
(ou então faz e fui eu que me esqueci entretanto)
mas no momento seguinte, em que volto a ler
o sentido renova-se e reforça-se.

Nihil

Niilismo :
    do latim nihil, nada + ismo;
     Redução a nada.

Redução a nada
Como a mortificação esperada
Pedida, emprestada, facilitada,
Abandono de tudo, ser nada.

O vazio enche-se.
O espaço enche-se de vazio.

Só o vazio aceita
Que algo entre.

Só o vazio tem onde deixar
Alguma coisa ficar.

Redução a nada
Como contentor profundo.
Conter muito, conter tudo,
Abandonar nada, ser tudo.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Um bis para o dia

na verdade queria já poder ter escrito
que desde aquela altura continuei
sempre um pouco perdido já que tu
e eu nos demos ao trabalho de deixar de ser
e que isso não é pouco e nunca foi pouco
sempre foi muito às vezes demais
por isso que parte de mim vagueia
e outra parte eu realmente não sei onde estar
e outra parte matei-a mas afinal
essa deve ser a única parte que teima
e nunca morre

Se engraxasse sapatos

das poucas coisas que deixei para trás
conto pelos dedos
as que abandonei definitavemente.

tenho à nora em mim a saudade.
se tivesse ficado por lá, mais tempo
aprendendo a libertar-me de uma forma que
(se calhar) já me esqueci, será que
agora teria outro tema ou assunto
ou algo melhor que dizer?

não sei se na altura, tudo foi profundo.
não sei se pelos tornozelos se respira bem.
às vezes digo pouco e aleijo tanta gente,
às vezes grito e não irrito ninguém.

por isso que persista uma dúvida
porquê
para quê
por quem
escrever?

(cuidado: que faço estas perguntas a mais que isto
como porquê para quê e por quem
pensar sequer voltar.
não tenho lá nada, não terei nada e não penso ter nada)

deixem-se passar as imagens de berrante.
sempre disperso vê-se o concreto que é disperso também.
memórias de artistas
memórias de quem?