domingo, 27 de janeiro de 2013

nenhuma

não tenho respostas
sussurra-me por favor
só a mim por favor
todas as respostas

inexplicavelmente preciso de saber
impossivelmente tenho sede de saber
necessariamente, extraordinariamente
mente mente mente

não tenho respostas
cala-me por favor
cala-me todo por favor
todas as respostas

sábado, 26 de janeiro de 2013

382



Amigo que me acompanhas,
Já acho estranho o teu silêncio.
Já acho estranha a tua forma de florir
Em que entrelaças as mãos e te regas.

Amigo, já te escutei o que podia,
Já te ouvi, já te sei, já te vejo.
Consigo olhar para ti e sinto-te na pele
Como se a tua pele fosse minha.
Porque sinto os joelhos queimados das quedas
Que demos, sei o sabor de quando nos levantámos…
De todas as vezes que nos levantámos.

E adivinho nos teus olhos, em ti,
A tristeza mais colossal, o fardo mais pesado,
O fado mais negro para ser vivido.
Sei na tua coroa as lágrimas de tanto.

Vejo-te, as tuas mãos entrançadas
A tua grinalda ao colo, o teu ímpeto no chão,
Essa coroa de flores nas pernas,
Essa tamanha tristeza
Essa perene solidão.
Vou ficar mudo e sem respostas para ti,
Amigo, a nossa condição não é nada.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ah! Que inspiração, vede bem

Leanor ide à fonte com a bilha.
O vento passa-lhe pela virilha
E sabemos todos que ela virá triste
Por o seu amado morrer.

Leanor veio da fonte sem bilha
(Felizmente não se lhe despegou a virilha)
Mas como já a sabíamos vir triste
Veio sem as lágrimas esconder.

O parvo do campo
Sentado com o vento
Riu-se largamente um momento.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Não-Ode, Não-Ode



Hoje vi-te curvada na tua dor.
Sei, já não eras a mesma,
Como já não foste a mesma
Depois de tudo e tanto.

Em mim nada mais que
Um certo conforto, macabro.
Saber-te no teu pranto e
Contente, no entanto…

Bate sempre à nossa porta.
Ah, sim, sabia que iria bater à tua.

Sabia já toda a verdade, crua,
Bastava olhar.

Trago em mim o mesmo pesar
Desde a última vez que soube sorrir para ti.

Um saco, mais um, para o burro
De carga que eu sou.

Não te aflijas, sei como
Te passa, te esquece.

Conquanto, essa tua dor
De joelhos no chão…
Curvando-te toda em peito.
Satisfeito… satisfeito.

Lê isto com a mente mais triste que tenhas,
Com a mente depois da tempestade e do incêndio.
Com a tristeza calma, irreparável,
De quem perdeu um amigo…

Alone is no pain, is much more

Por isso, por um ser um
Sei da companhia quanto baste
Para que o um que se é não chegue.

Por isso, acompanhar no medo
Que falar traz. Difícil é chegar
E às vezes não, nunca se chega.

Olá.

Adeus.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

encontranços caminhanços

encosta-te por aí
nos calabouços do sorriso

fica, para que percebas
o verdadeiro compromisso

que há de mim
para comigo.

(Enquanto isso, lá fora chovia
Como chove sempre que é noite
No Inverno desta sensação
Menos morta, mais triste.)



















oh, cá dentro quão triste
quão apagado, quão alheado,
quão nulo, quão sem razão

não há vontade, não há paixão,
não há movimento, não há acção,
não há nada, nada não existe...















(Enrolado a ver a chuva cair
O Desejo fita a Coragem perdida
Ir de encontro aos esgotos
Que a perdem para sempre.)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A uma Graxa de Resto,Sola de Sapato, sempre bom, obrigado



De alta razão comum
Definha aquele que é sozinho:
Combinado, troca a palavra
Pelo escasso valor do seu mundinho.

Valores deixados, esquecem
A “vã glória de se honrar”:
Enterram-se tal qual dissessem
“Antes porcos do que a ter de me lavar!”

Crua, a dor nos dentes,
Total cheia e preenchida.
Com tudo na mesa!

O jogo, aberto e ganho!
O árbitro paga-se de mimos
“Falta, falta, derrota justificada!”

Quem assim aspira a algo?
Se chapa dada é chapa gasta?
E da comum realização
Nem a palavra vale nada?

Desses, descontentando-se,
Granjeiam a piedade inexistente!
Mas a palavra é clara, a voz fremente.
Não falemos por um! Mas por toda a gente!

Derrotados uns pela vil retórica
Que ofusca argumenta e dá razão
Cai derrotado aquele que em justiça
Deveria carregar a vitória na mão…

Irra! Bate! Diz! Revela!
Que a vontade de todos é igual
Só a solução por uns mal partilhada!

Juntos, como um, combinam o caminho
Que a todos dê o melhor progresso!
Fogem uns de boleia… ninguém os espera no regresso.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

É isso, fazes bem

cala-te
hoje não preciso
amanhã

talvez

fica sempre
mas não chateies
só quando

aparecer

eu te chateio
uma vez
quando precisar

domingo, 13 de janeiro de 2013

375

Sentado dou por mim
Em cima de toda a metafísica
Que pensei que existia.

Afinal isto não é nada assim
E a metafísica se abre portas
Deixa outras tantas fechadas
E tanta fome por matar.

Ah, soubesse eu como
Não perder a inspiração na trivialidade
Do Mundo.

Mas a Arte que abandonei
Que me servia ou não (não sei)
Parece ter-me abandonado agora a mim
Sobre a forma de vontade fugindo.

Olha, amiga que vou deixando para trás,
Cada vez te olho de mais longe com a mesma vontade
Fugindo tanto que já nem és, amiga.

O que resta é encontrar o fim
Quando vier, até ele abrindo caminho.
Como os deuses sempre calcam a terra
Chegará o dia em que me calcarão.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Air Born

imersos
os meus lábios e eu não falam
(que têm pouco que dizer
ou vontade pouca)

querer quero

querer quero

Querer?
Sim, Quero.

afogado,
eu respiro e morro
(que se respira sempre
um pouco mais morto)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

3ªI

no barco da vida
vivem-se as ondas
que ora sobem, ora sobem
que ora descem, ora descem

o barco simplesmente sobe e desce
o barco não controla, só sobe, só desce
os marinheiros abrem e arrumam velas
e baixam e sobem âncoras os marinheiros

assim como assim no barco da vida
os enjoos são comuns e a viagem infindável
muitos são os que se perdem, que se atiram
às ondas que ora sobem, ora descem

não quero que percas a tua vez de enjooar
que a cada espasmo de sofrimento tudo se torna diferente
mas quero que voltes depois para abrir as velas
que a cada momento se segue em frente