quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Incoêrencia

Ando, e o vento carrega
No seu manto o meu olhar,
Esse que vai na névoa
Procurar ver-te em qualquer lugar.

A erva é ressequida
Amarela e torrada pelo sol
E eu digo tanta palavra, não sentida
Por esta casca de caracol.

E o monte alevanta a vista...
Para cima, para o lado de lá...

Se o subo, talvez te veja
Quando o meu olhar voltar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Saudades

Falo a ti, que não respondes
Que estás em parte incerta
Falo em ti, que não te escondes
Apenas a mensagem não te acerta

Se disparasse uma flecha
Com um bilhete para ti
Ela não iria directa
Acharia outro fim

Não cairia ao teu lado
Ou espetada nessa àrvore

Não chegarias a lê-la
A recebê-la.

Enquanto o espaço nos separa
E o tempo teima em esperar

Escrevo-te uma outra carta
"Tenho amor p'ra te dar".

Dá-me a tua mão
Deixa-me ler-te a sina
Não a vejo com a visão
Pelo menos, não com a minha.

Deixa-me criar um caminho
Um que se possa correr
Andar nem quero, perdido
Neste desejo de te ter.

Passado

A marca passada
Encolhe

O futuro vem
Estica-se à nossa frente

Se agarro as tuas mãos
O frio que delas vem
Desaparece num abraço.

O nosso amor não rima
Encaixa apenas, consegue entrar
Cada ranhura que é minha
Faz-se entrada para te albergar.

Talvez um dia a roda dentada
Encrave, deixe de rodar
Desse dia não espero chegada

Pode vir, deixo-o passar.

(Ao lado.)

Loucura

Enrola enrola enrola
Enrola enrolando mais
Enrola tudo e demora
Enrolando cada vez mais!

Remói remói remói
Remoendo gira não dói
Constante explosão de palavras
Remói ignorando desgraças!

Se pula mais alto
Do que antes pulou
Pula de um salto
O que menos esperou!

Tempo

O clarão apaga-se
Na memória curta da noite
Onde estás e onde estavas

O relâmpago cai matando
A terra morta no chão
E eu aguardando

Vem ao de cima, planta carnívora
Deixa caçar a tua potridão
Encher-te de morte e cinza
Das achas do meu coração!

Vem tu que teimas em devorar
Oh memória corrompida do espaço
Vem para que eu possa matar
O que perde o que faço!

Enterra-te oh erva daninha
Afugenta-te de mim
Dessa vida que é só minha
Que não foi feita para ti!

Deixa guardar os meus momentos
Em prateadas caixas de trevas
Onde se vê apenas o esboço
Da paixão, dias e eras.